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quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Ancestralidade Sagrada – Saravá aos Pretos e Pretas-Velhas


PRETOS-VELHOSOs Pretos-Velhos e as Pretas-Velhas fazem parte da origem da Umbanda e representam a ancestralidade e sabedoria. O segundo espírito a se manifestar em uma sessão umbandista – conduzida pelo Caboclo das 7 Encruzilhadas – foi Pai Antônio. Espírito que se manifestava de forma diferente, trazendo certa humildade e subserviência, possivelmente representando o personagem que era quando encarnado como escravo em terras brasileiras.


Mas ao mesmo tempo que essa figura se mostrava humilde, pacata e até certo ponto-frágil, também era possível antever grande sabedoria e pureza em suas palavras. A linha dos Pretos-Velhos, para alguns considerada a Linha das Almas, das Almas Santas ou Africana, traduz em muito a Umbanda: Um estrangeiro trazido a uma terra desconhecida servindo de escravo e que tinha a sua liberdade tolhida em todos os aspectos, sendo rebatizado com nomes católicos e carregando profunda humildade.

Apesar da  Umbanda ser formada inicialmente pelo triângulo de forças: Caboclo, Preto-Velho e Crianças, acredito que essa linha dos sábios Vovôs e Vovós é a que mais representa os valores umbandistas.

Carregado na mironga e no sotaque, sempre fazendo seus benzimentos típicos, vemos a confluência entre a cultura ancestral e tradicional com a temática católica, trazendo um universalismo primitivo incrível e eficaz. São os benzedores por excelência e é quase impossível não gostar de falar com um Preto-Velho.

Para algumas vertentes umbandistas os Pretos-Velhos vêem na Linha de Oxalá, em outras na Linha das Almas, para alguns na linha de Yorimá (Umbanda Esótérica/Iniciática) e em outras é a linha da Evolução, sustentada pelos Tronos da Evolução Obaluayê / Nanã Burukê (Umbanda Sagrada).

Dentro da minha tradição eles são representantes da linha de Oxalá, que é o Orixá Ancestral primordial. Até a manifestação de Oxalá lembra em muito a dos Pretos-Velhos no terreiro, além do fato deles citarem muito: Que o Saravá de Nosso Senhor Jesus Cristo te abençõe!

Mas isso não quer dizer que não sofram irradiação dos demais Orixás, principalmente dos outros Orixás Ancestrais Omulu (Obaluayê) e Nanã Burukê. Além de todos os outros Orixás: Xangô, Iansã, Ogum, Oxum, etc.

Gostam muito de conversar, mas não são diretos em suas palavras. Preferem deixar o filho pensar depois de ouvir uma história. Utilizam o tabaco – em cigarro de palha ou cachimbo – como forma de descarregar as energias negativas e pesadas, mas podem usar diversas ervas para tais fins. Conheço alguns Vovôs que usam a mistura de Calêndula, Sálvia, Alecrim, Alfazema, Rosa Branca, Hortelã e Tabaco como fumo ritualístico.

Podem beber café amargo ou adoçado com rapadura ou mel. Alguns lugares aceitam ofertar vinho tinto ou marafo com mel. Adoram um galho de erva para um cruzamento e um benzimento e podem benzer tanto através da água quanto através do fogo.

Vovô Francisco do Congo ensina um benzimento para ser auto-aplicado: Com um galho de arruda você pode fazer uma cruz em frente a própria testa, depois repete na garganta e por fim repete na frente do coração. Enquanto cruza vai dizendo: “Senhor de Misericórdia, pelas chagas de Jesus, clamo a ti a vossa luz, para que mal nenhum  perturbe o meu pensador, meu falador e meu coração, com amor, com perdão, cruzo a frente e atrás, com humildade e sossego, fico na mão do cordeiro, assim sendo.” Por fim joga-se o galho de arruda em água corrente ou fora no lixo, fora de casa.

Pode ser feito diariamente ou no intervalo de tempo que desejar. Sempre finalize os benzimentos com o agradecimento a Deus Maior, o Deus Pai e também reze um Pai Nosso e uma Ave Maria e faça o sinal da cruz.

A cor mais utilizada nas velas e fitas dessa linha é o Branco, porém também podemos ver o uso de violeta, roxo e lilás. Algumas vertentes utilizam velas nessas cores e também velas bi-color preta-e-branca. Na nossa tradição não se utilizam velas pretas, logo podemos usar a toda branca no lugar.

Seu pratos ritualísticos são: Caruru, Mungunzá, Vatapá, Cuscuz, Bolo de Fubá, Pipoca, Bolo de Milho, Cural, Pamonha, Tutu de Feijão, Feijão Fradinho, Doce de Abóbora, Cocada, Rapadura e Batata Doce. Ainda podem receber coco seco, uvas verdes grandes, melão, pinha e pinhão.

Suas flores geralmente são as brancas com muitas pétalas abertas, como crisântemo branco, margaridas, azaléia branca, palmas brancas, dálias brancas. Usam como ferramentas o terço, a cruz, a pemba, a bengala, o chapéu de palha, o cachimbo, etc.

Em seus pontos riscados é comum encontrar estrelas, cruzes, cachimbos, espirais (caracóis), bengalas, entre outros. A saudação a essa linha é “Adorei as Almas” ou “Iaô Vovô, Iaô Vovó”.

Então, nessa data em que é comemorada a promulgação da Lei Áurea, vamos render homenagens a aqueles que nos libertam da escravidão da vaidade e do orgulho todos os dias, com seus conselhos e broncas bem colocadas, sempre “comendo o mingau pelas beiradas”.

Saravá a todos Pretos-Velhos e a todas Pretas-Velhas! Iaô Vovô e Iaô Vovó!

Abaixo algumas práticas na força dos Pretos-Velhos para nossa proteção.

Firmeza na Força de Preto-Velho para proteção do lar.

Uma imagem de São Benedito, uma caneca de ágata esmaltada – de preferência branca, um terço de madeira ou de Lágrimas de Nossa Senhora. Coloque em um local alto, o terço cruzado na imagem e na frente a caneca. Faça um sinal da cruz – em você – e em posição de respeito reze um Pai Nosso e uma Ave Maria. Em seguida peça: “Meu São Benedito e toda corrente da linha dos Pretos e Pretas-Velhas, em nome de Deus, peço proteção para o meu lar contra toda maldade, doença ou moléstia. Proteja quem aqui vive e proteja o local em que vivemos. Afaste a fome e a necessidade e traga a fartura, a paz e a proteção. Amém”. Todo dia, ofereça o primeiro café do dia – sem açúcar – a São Benedito e a linha dos pretos-velhos, colocando na caneca em frente a imagem. A caneca pode e DEVE ser sempre lavada. Não é preciso acender velas ou incensos.

Oferenda para pedir proteção espiritual.

Você vai precisar de um Alguidar Pequeno, Pipocas estouradas na panela com um pouco de azeite de dendê e sem sal, coco ralado e uma vela branca de 7 dias. No centro do alguidar você coloca a vela de 7 dias em volta coloque as pipocas e o coco ralado. Faça um sinal de cruz e reze um Pai Nosso e uma Ave Maria e peça: “Deus, Senhor de infinita misericórdia, peço a ti a bondade de me proteger contra os inimigos invisíveis encarnados e desencarnados. Que todos aqueles que mal me desejam sejam afastados de mim e encaminhados para seus lugares de merecimento, sendo acolhidos por Santo Agostinho em suas aflições. Peço a Vós meu Pai e aos santos Vovôs e Vovós que mantenham meu coração e alma limpos da tentação e da maldade. Assim seja!” – Reze mais um Pai Nosso e mais uma Ave Maria. Depois de 7 dias queimando a vela, pode jogar fora, no lixo comum, tudo e pode lavar e reaproveitar o alguidar para refazer essa oferenda em outra oportunidade.

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