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sábado, 7 de maio de 2016

Xangô, o Orixá da Razão e Justiça Divina


As experiências que se adquire no terreiro valem cada minuto lá passado. Aprendemos todos os dias nas giras de atendimento à assistência, não só aspectos intelectuais e morais, mas também como quebrar os paradigmas terrenos que poluem a nossa mente.

Um dos grandes conselhos que sempre recebi dos guias-chefes da Casa que frequento é:

“Ao pedir Justiça para Xangô, esteja preparado para recebê-la!”
Nós, encarnados, temos uma estranha concepção sobre a Justiça. Se alguém nos faz algo, que julgamos errado, logo pedimos para que seja feita a Justiça. Porém, o que esperamos na realidade é que essa pessoa que nos fez mal também sofra do mal que fez a nós ou qualquer outro mal, pagando assim pelos seus atos. Bom, isso não é Justiça. É vingança!

A concepção de justiça que possuímos é muito baseada na Lei de Talião: “Olho por olho, dente por dente” e da concepção romana de justiça. Porém para as divindades não é assim que ocorre, por vezes o simples fato do arrependimento ocorrer e daquele que nos fizeram mal pedirem perdão, já incorre na justiça feita. O Orixá que representa a justiça é Xangô e ele também representa a razão. Quando tudo está resolvido de forma racional, a justiça estará feita.

Devemos equilibrar os pratos da balança novamente, apenas isso, e não desejar o mal ao nosso próximo. Até porque a nossa visão sobre o que é justo ou não é bem limitada e subjetiva. Podemos achar que certo cerceamento dos pais aos adolescentes é perverso e injusto, porém de uma forma ou outra está sendo feito para o bem daquele, na visão do adolescente está tudo errado, na visão dos pais está tudo certo.

Além disto, os Orixás conseguem ver de um ponto de vista muito mais amplo, com a flexão das nossas múltiplas encarnações e das consequências de nossos atos, logo quando pedir para Xangô algo pode ser que você receba exatamente o que merece. A justiça pode ser feita pelo lado de lá e “contra” o que você julga ser bom para você.

O que se deve realmente fazer em casos desses é colocar em pauta a necessidade e o merecimento de um pedido feito. “Pai Xangô, se for de minha necessidade e merecimento e estiver dentro da Lei  e Justiça de Deus, que seja feito …” etc.

Lembre-se que o machado de Xangô tem corte nos dois lados.

“Pedra Rolou Pai Xangô,
Lá nas Pedreiras.
Afirma o ponto meu Pai,
Nas Cachoeiras
Tenho meu corpo fechado
Xangô é meu protetor
Afirma o ponto meu pai
Pai de cabeça chegou.”

Xangô é um dos Orixás que podem ser sincretizados com diversas figuras mitológicas ou santas, tais como: Moisés, São Jerônimo, São Pedro e São João Batista. A imagem que costumeiramente vemos nos terreiros é de São Jerônimo, porém eu gosto muito de pensar na sua figura sincretizada com São João Batista, de alguma forma me é simpática essa associação. Esse sincretismo é visto mais como uma das qualidades desse Orixá – Xangô Kaô – o regente da Linha do Oriente na Umbanda.

São João Batista (24), ao lado de Santo Antônio e São Pedro (em alguns lugares, São Pedro e São Paulo), é festejado no mês de Junho. É tido como um dos possíveis Messias da antiguidade, também filho de uma concepção milagrosa através de Izabel, que era prima de Maria – Mãe de Jesus. A Mitologia Cristã apregoa que ele batizou Jesus nas águas do Rio Jordão, um simbolismo da sua precedência aos ensinamentos cristãos e também da humildade do mestre da Galileia. Contudo, historiados creditam que João Batista tenha nascido por volta do ano 7 A.E.C, outros colocam mais próximos ao ano 0, por volta de 2 A.E.C. Mas o que temos que analisar aqui é a simbologia. Então a simbologia do batismo é a aceitação de Jesus da continuidade de pregar a palavra que João já pregava e do reconhecimento humilde do aluno sendo iniciado pelo Mestre, tanto que ambos são considerados membros da comunidade dos Essênios, mas isso é outra história.

Xangô rege a Quarta Linha na Umbanda Tradicional e na Umbanda de Matta e Silva e o Trono da Justiça na Umbanda Sagrada. Seus aspectos são sempre parecidos em todas as vertentes umbandistas, regendo a Justiça, Harmonia, Equilíbrio, Racionalidade e o Julgamento. Como responsável da Justiça Divina, acaba trabalhando as sentenças conscienciais de cada um, conforme as leis de Causa e Efeito.  Apesar do termo Justiça Divina (assim como Lei Maior) ter se popularizado através da Umbanda Sagrada, os mesmos não são propriedades desta vertente, sendo encontrados e utilizados por casas muito mais antigas do que a própria concepção de Umbanda Sagrada.

Xangô é considerado um Orixá que se encantou, ou seja, era um ser humano que através do processo de encantamento se torno Orixá. Logo algumas pessoas na região onde era a cidade de Oyó – região hoje da porção ocidental da Nigéria – clamam serem descendentes de sangue desse Orixá. É considerado extremamente sedutor e conta com o domínio sobre o Trovão e o Fogo. Seu ponto de Força são as pedreiras e os Citrinos – cristais de ametista – são considerados como “beijados” por Xangô e Iansã. Em algumas lendas é associado com Ogum e em outras é considerado seu irmão, de qualquer forma são Orixás que atuam conjuntamente, Ogum sendo a Lei Maior e Xangô a Justiça Divina.

Dentro dos elementos de Xangô podemos encontrar o Jaspe Vermelho, a Pedra do Sol, o Olho de Tigre e a popular Pirita. Tem como símbolos o hexagrama – Selo de Salomão ou Estrela de Davi, assim como o Machado Duplo, a Balança, o Trovão e a Ampulheta. Sua saudação é “Kaô Cabecilê Xangô!”. Costuma-se usar as cores de vela vermelha e marrom para suas firmezas e oferendas. Seus pratos típicos são o Amalá de Xangô e o Caruru, sempre com elementos como Azeite de Dendê ou de Oliva presentes, assim como o Quiabo. Costuma-se usar também cerveja preta em suas oferendas e mirongas. Aceita flores vermelhas, laranjas e amarelas com tons vibrantes.

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