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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Contos: Diário de um viajante – Súcubus


Era final de tarde, de um dia de semana qualquer. Eu estava em casa sozinho, prestes a ir para o banho e me aprontar para o meu terceiro turno de trabalho, na parte da noite. Quando entrei no quarto, senti uma sonolência súbita e muito forte, que já aprendi a identificar como um chamado para as circunstâncias em que um desdobramento astral se faz necessário para entrar em contato com os Guias Espirituais.
Deitei na cama, fiz uma breve oração, mentalizei fluxos de energia vibrando mais intensamente através dos meus chakras e me projetei para fora do corpo com muita facilidade, comprovando a hipótese de que alguma missão me aguardava, pois, em circunstâncias ordinárias, o processo de desdobramento costuma ser mais lento e dificultoso.
Fora do corpo, não vi nenhum Guia ou qualquer outra entidade no aposento, mas uma intuição muito nítida me induziu a saltar para a rua e tomar um rumo específico, ainda que eu não soubesse para que fim. Rapidamente, cheguei diante de um asilo para idosos, localizado a apenas um quarteirão de distância do meu edifício. Ao me aproximar do portão, senti uma presença difícil de descrever, que era provocante – no sentido sexual do termo – mas ao mesmo tempo extremamente hostil. Olhei para o lado e vi se esgueirando através do jardim de entrada uma figura feminina, vestida com uma espécie de túnica branca com um grande decote na frente, deixando seus seios quase que totalmente à mostra. Seu cabelo castanho – preso em um tipo de coque – e sua maquiagem carregada lhe conferiam um aspecto retrô, que me fez lembrar daquelas vampiras vistas em antigos filmes de terror da década de 70.
Pela emanação sensual e agressiva que identificava nela, entendi de imediato que se tratava de uma súcubus – entidade astral que estimula sonhos e fantasias sexuais nos encarnados com o objetivo de lhes vampirizar energia, principalmente dos chakras inferiores – mas, ao contrário da maioria que já havia encontrado e que consistiam basicamente em formas-pensamento autônomas, esta era claramente um espírito que iria assediar algum velhinho em condição de vulnerabilidade.
Instintivamente, me aproximei e segurei-a pelo braço, impedindo-a de entrar no prédio. Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, ela aproximou seu rosto do meu e colocou para fora da boca uma língua enorme, que se moveu lascivamente na minha direção, fazendo menção de que iria me beijar, ou me lamber. Assustado, agarrei-a pelo pescoço e afastei seu rosto do meu. Mantive-a assim por alguns segundos, sem saber ao certo o que fazer, enquanto ela apenas sorria debochadamente enquanto tentava me apalpar. Quando eu já estava ficando preocupado, sem querer soltar a entidade, mas ao mesmo tempo sem saber a melhor forma de proceder, surgiram, como se atendendo as minhas súplicas, o Caboclo Tupinambá e o Pai Joãozinho – dois dos Guias com os quais mantenho contato – e rapidamente envolveram a súcubus em uma espécie de névoa de energia fluídica de nuances esbranquiçados e azulados, para em seguida partirem através de um facho de luz, certamente levando-a para um local onde teria um tratamento adequado.
Despertei no corpo físico em seguida, um pouco constrangido por ter sentido medo e ter ficado sem saber o que fazer, mas, por outro lado, feliz por ter vivenciado essa experiência que, se os Guias me julgaram digno de presenciar, certamente foi porque entenderam que eu poderia extrair disso algum aprendizado.
Fico pensado: como deve ser o ambiente astral que circunda esses asilos para idosos? Não tenho dúvida de que muitos deles são excelentes, onde predominam os bons cuidados, o carinho e a tranquilidade. Porém, é fácil imaginar que, infelizmente, há os que são impregnados de energias pontuadas por tristeza, rancores, medos e angústias provenientes das mentes e dos corações daqueles que vivenciam uma rotina marcada pelo despreza e pelo abandono. Certamente estamos falando de ambientes propícios ao surgimento de toda sorte de formas-pensamento maléficas, além de entidades vampirizadoras como aquela que encontrei.
A você que está lendo este texto, fica o convite para dedicar alguns minutos do seu tempo para fazer uma oração caridosa em prol dos habitantes destes lares que, independente de qualquer circunstância, só têm a se beneficiar com a nossa compaixão.
Por André Caboclo

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