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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Médium de livro ou de internet é um perigo?

É natural que iniciantes ao lerem livros de que gostem, passem a divulgá-los de uma forma entusiástica, algumas vezes até quase que como sendo verdades absolutas. Claro que isso fere o bom sendo. Ao expor um conceito, é necessário demonstrar alguma vivência. É preciso associar teoria e prática para se ter alguma credibilidade. Caso não se tenha vivência é sempre mais coerente perguntar do que tentar ‘doutrinar’.
Existem muitos umbandistas que mesmo sem ler livros adquiram muito conhecimento a partir dos muitos anos de vivência dentro da religião e isso deve ser respeitado, mas eu espero que, por conta disso não haja o desestímulo à leitura e ao estudo.
A formação tradicional de um Babalaô na África, por exemplo, começava muito cedo. Por volta dos sete anos, o menino aprendiz ia morar na casa de seu mestre e passava muitos anos aprendendo a lidar com as ervas, a fazer as evocações, memorizar os textos sagrados, a fazer as oferendas etc. Havia um estudo, não escrito, é verdade, mas havia.
Claro que esse tipo de iniciação é algo que na sociedade urbana atual é extremamente complicado, quase que impossível. Por que não usar também o recurso da leitura, sem dispensar, é claro a imprescindível vivência no Terreiro?
Existem Terreiros que começaram realizando estudos sobre livros espíritas, adaptando os conceitos à realidade deles, e hoje em dia fazem estudos em cima de apostilas próprias. Outros começaram seus estudos tendo por base autores umbandistas, da mesma forma, adaptando os conceitos dos livros à concepção deles.
Assuntos como mediunidade, por exemplo, possui tópicos muito importantes, como: modalidades mediúnicas, níveis de consciência, animismo natural, animismo vicioso, classificação das entidades manifestantes; e outros que quando não são estudados, seja na visão do espiritismo adaptada ao nosso meio (umbandista), seja na visão de uma ou outra escola adaptada à nossa própria escola umbandista, trazem uma insegurança desnecessária ao médium e outros problemas que poderiam ser evitados, na minha opinião.
E ler também pode ser um exercício de desenvolvimento mediúnico. Quantas vezes não somos respondidos intuitivamente ou mesmo auditivamente quando indagamos algo mentalmente ao lermos livros espíritas, espiritualistas ou umbandistas?
Eu penso que exista um estereótipo, criado a partir do início do movimento umbandista, do médium umbandista de baixa escolaridade com qualidades mediúnicas naturalmente excepcionais. Assim sendo, foi criada a cultura de que umbandista não precisa estudar. Isso certamente não vem dos guias e sim do estereótipo formado. Porque muitas das entidades demonstravam e demonstram conhecimento em várias áreas do saber humano. Como poderiam ensinar o não ler, o não estudar, claro que com discernimento?
Eu acho que a questão de muitos médiuns do início do movimento umbandista terem sido de pouca escolaridade era porque isso de fato refletia o nível de educação da população brasileira, que até há pouco tempo era comparado ao de países mais pobres da América Latina e África, ficando atrás da Argentina e Chile, por exemplo.
Como era o início do movimento, houve uma necessidade maior de que fosse enviado ao plano físico, inclusive entre as classes mais carentes, um considerável número de excelentes médiuns, preparados que foram no Astral Superior para serem os ‘profetas’ da religião. Os ensinamentos de seus guias se perpetuariam nas gerações futuras.
Acontece também que alguns desses grandes médiuns do passado, parte inconscientes, parte semi-inconscientes, que em verdade tinham pouco conhecimento do que era de fato a Umbanda (até porque era o início da religião, quem sabia o que era Umbanda eram os guias) resolveram escrever livros, conforme seus entendimentos, suas formações religiosas. Assim, é natural que a qualidade dessas primeiras obras não tenha sido a melhor possível e isso também resultou na baixa aceitação do público.
Mas, graças a Deus, a escolaridade do Brasil, embora ainda não seja a ideal, melhorou consideravelmente nos últimos anos, a qualidade dos livros também tende a melhorar, e é de se esperar que o movimento umbandista acompanhe essa evolução.

Texto de Gilson Telles – Rio de Janeiro/RJ

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