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quinta-feira, 30 de abril de 2015

As horas grandes e pequenas, velas e trabalhos na Umbanda


Dentro dos fundamentos da Umbanda encontramos o mistério das horas planetárias e sua ação dentro da estrutura espiritual no plano físico.
A luz solar é um elemento energizador que promove uma limpeza, uma “varredura” espiritual no plano físico, sanando nosso ambiente energético e eletromagnético, proporcionando uma maior ativação energética. Enquanto a ausência da energia solar propicia o acumulo de energias deletérias. Por isso grande parte dos trabalhos de magias negativas são realizados no período de maior escuridão.[1]
Somos frutos do meio e automaticamente somos influenciados energética e espiritualmente pelo período de exposição solar ou se assim preferirem pelo giro do planeta. E seu movimento de rotação e translação altera nosso campo energético[2]. Tanto é verdade que de dia sentimo-nos mais energizados e bem-dispostos e a noite desenergizados e sonolentos. O mesmo serve para o verão e para o inverno.
Na estrutura energética, espiritual e dimensional de nosso planeta existem algumas estruturas que podemos chamar de aberturas ou Portais dimensionais e magnéticos. Quando determinadas regiões de nosso planeta passa por alguns desses portais eles acabam por desencadear uma influência energética, magnética e espiritual sobre ela.
Podemos, para facilitar o entendimento, dividir nosso planeta em um quadrante: Norte /Alto; Sul / Baixo; Oeste /Esquerda; Leste /Direita[3].
Com isso entendido, a Umbanda fundamenta seu mistério das horas não por acaso, e estabelece um significado de maior importância a determinado horário[4], em especial as horas denominadas de grandes e pequenas.
Assim fundamenta-se na Umbanda o horário das 6h00 e das 18h00 como as horas pequenas e o horário das 12h00 e da 0h00 (meia-noite) como horas grandes[5]. Sendo o compreendido o horário das horas intermedias ou neutras das 6h00 as 18h00[6].
Assim temos o horário das 6h00 como a primeira hora pequena. Esse horário abre-se o portal de vibrações curadoras, renovadoras, transmutadora que chamaremos de Portal de luz ou Portal angelical[7], onde os primeiros raios solares se expandem por determinada região do planeta[8], realizando uma verdadeira assepsia áurica e energética sobre determinada região, reorganizando, energizando, reestruturando e recolhendo o que precisa ser recolhido, restruturado, reorganizado e energizado.
Temos as 12h00 a primeira hora grande, que é o momento em que temos uma maior exposição solar, energética e magnética, onde as vibrações crísticas e solares estão mais fortes, puras e elevadas. Esse momento também marca uma transição energética, pois é a partir daí que o sol começa a “perder” sua força sobre determinada região. A esse portal chamamos o Portal de Oxalá.
As 18 horas chega a segunda hora pequena da Umbanda, onde recebemos uma imantação especial que ajustará o ambiente para a próxima hora grande. Esse Portal é conhecido como Portal do Anjo da Guarda. Pois a partir dessa hora nossa região planetária começa a absorver ou a ter um magnetismo mais denso.[9]
Aqui vamos fazer um parentese: para algumas tradições as 21 horas abre-se um novo Portal que é o portal dos Guardiões Planetário, onde a atuação desses seres se intensificam em nossas vidas[10].
A meia-noite[11], vigiado e amparado pela falange dos Guardiões Planetário, abre-se o portal da segunda hora grande, que é um portal de misericórdia, onde seres de energias e vibrações mais densas tem acesso ao nosso planeta para que possam se despertar da hipnose sombria e acordar para o humanismo ainda existentes neles. Para que assim possam ser encaminhados e direcionados pela equipe de socorristas noturnos (Exus e Pombagiras) aos seus locais de recuperação e refazimento, sempre dentro da Lei Maior e do merecimento de cada um. Esse portal e conhecido como Portal da Morte ou Portal de Omolu.
Isso é um ensinamento espiritual antigo, resguardado, e muito usado pelos Guias de Lei de Umbanda nas suas atuações o campo físico, que muitas vezes nos recomendam a não fazermos trabalho perto da hora grande da noite, ou meia-noite.
Por isso que aconselha-se na Umbanda que os trabalhos de direita sejam feitos entre as 6h00 e 18h00 ou enquanto houver sol; assim como os trabalhos de esquerda sejam feitos a partir do por do sol ou depois das 21h00, evitando o horário da meia-noite. Mas nada impede que, caso haja uma necessidade de realizarmos um trabalho fora desses horários. Apenas entendemos que nesses horários os trabalhos religiosos podem ser potencializados.
Saravá fraterno
Heldney Cals

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Lenda da Cabocla Jurema

O sol girou uma vez mais ao redor da Terra e quando os raios da manhã tocaram a sua testa,a cabocla gritou: – Sou Jurema!!!
E pulou do galho mais alto da árvore gigante e pareceu voar por entre os pássaros e outros seres alados da floresta; mergulhando no rio profundo, de onde emergiu, nadando com os botos que entendiam o seu canto. Cabocla, filha valente de Tupinambá. Adotada pelo mundo, foi encontrada aos pés do arbusto da planta
encantada que lhe deu o nome, e cresceu forte, bonita, com a formosura da noite e a firmeza do dia. Corajosa, a cabocla tornou-se a primeira guerreira mulher da tribo, pois a sua força e agilidade no manejo das armas e na ciência da mata, se tornara uma lenda por todo o continente; onde contadores de estórias, aos pés da fogueira, falavam da índia da pena dourada, que era a própria Mãe Divina encarnada. Nada causava medo na cabocla, até o dia em que ela encontrou o seu maior adversário: o AMOR. Jurema se apaixonou por um caboclo chamado Huascar, de uma tribo inimiga chamada Filhos do Sol, e que fora preso numa batalha. Os dias se passaram e o amor aumentava, pois o pior de amar não é amar sozinho e sim ser amado em retorno, pois exige do amado, uma ação em prol do amor. Pelo olhar, o caboclo Huascar enamorado pedia por sua liberdade. Jurema que aprendera a resistir ao canto do boto, ao veneno da cascavel e da armadeira, já resistira bravamente a centenas de emboscadas e que sentia o cheiro à distância de ciladas, não conseguiu resistir ao amor que fluia do seu peito por aquele guerreiro. Observando o caboclo preso, ela viu nos olhos dele, as mil vidas que eles passaram juntos, viu seus filhos, o amor que os unia além da carne e percebeu que não foi por acaso, que ele fora o único caboclo capturado vivo, e decidiu libertá-lo, mesmo sabendo que seria expulsa da sua tribo.
Na fuga, seu próprio povo a perseguiu, e em meio a chuva de flechas voando na direção do caboclo fugitivo, foi Jurema que caiu, salvando o seu amado e recebendo a ponta da morte que era pra ele, no seu próprio peito. Conta a lenda, que o caboclo Huascar voltou a Terra do Sol e fundou um império
nas montanhas andinas e mandou erguer um templo em homenagem a Jurema, onde, só as mulheres da tribo habitariam e lá aprenderiam a ser guerreiras como a mulher que salvara a sua vida. E no lugar onde a Jurema caiu, nasceu uma planta robusta e muito resistente que dá flor o ano inteiro, cujo formato exótico e o tom amarelo-alaranjado intenso chamou atenção de todas as tribos, pois tudo dessa planta poderia ser utilizado, desde as sementes, até as flores e o caule; e porque as flores dessa planta estão sempre viradas para o astro maior; ela ficou conhecida como girassol.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Guias e Protetores


Sendo os Orixás vibrações extremamente elevadas, acredita-se na Umbanda, que não é possível o contato direto com eles. Por isso cada linha de Orixá, envia para trabalhar na Terra os Falangeiros e Guias, que são entidades trabalhadoras, que vem de Aruanda ajudar seus filhos, nos livrando de demandas e transmitindo bons fluidos, formando, cada Orixá, uma falange de espíritos.


A pureza, que nega o vício, o egoísmo e a ambição; A simplicidade, que é o oposto da vaidade, do luxo e da ostentação; A humildade, que encerra os Princípios do amor, do sacrifício, e da paciência, ou seja, a negação do poder temporal... A Tríade da Umbanda!!


As três formas que simbolizam estas virtudes são as de Crianças, Caboclos e Pretos Velhos, que ainda traduzem: o Princípio ou Nascer, o Meio ou a Plenitude da Força e a Velhice ou o Descanso, isto é a consciência em calma, o abandono das coisas materiais...o esquecimento do ilusório para o começo da realidade. 


Os ocupantes das formas que revelam um Karma limpo, uma iluminação interior, é que são chamados a cumprir missão na Lei de Umbanda, e por seus conhecimentos e afinidades, são ordenados em uma das Três Formas já citadas... velando assim suas próprias vestimentas karmânicas. 


Esta metamorfose é comum aos que tomam a função de Falangeiros de Orixás ou Guias que assim procedem, escolhendo por afinidade uma dessas formas em que muito sofreram e evoluíram numa encarnação passada.


Para os que estão classificados como Protetores, em quase maioria, não se faz necessário essa transformação, porque conservam ainda uma das três formas em seus corpos astrais, quais sejam: CABOCLOS, CRIANÇAS e PRETOS- VELHOS.


São eles os Guias e Protetores, nossos conhecidos Pretos Velhos, Caboclos, Crianças, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros, Povo da Água, Povo do Oriente, etc. Cada entidade trabalha dentro de uma linha específica, por exemplo, O Sr. Caboclo Cobra Coral, trabalha na vibração de Oxossi, o Sr. Caboclo Pedra Preta na vibração de Xangô, as Crianças na vibração de Ibeji (Yori), e assim por diante. 


Cada entidade trabalha na linha que sua vibração mais se afiniza. Por isso é errado o termo "Linha dos Baianos", o correto é "Povo da Bahia".


Os Pretos Velhos trabalham tanto na Linha de Xangô, como na Linha de Obaluaê, isso dependendo de sua vibração. 


Quanto ao Povo da Bahia, podem vibrar em qualquer linha, há registros dessas entidades trabalhando na Linha de Oxalá, por exemplo. 


Todos Eles são entidades de grande valor.


Contamos ainda com a Linha do Oriente, que é formada pelo Povo do Oriente, que veio para a Umbanda por afinidade trabalhar principalmente com cura. 


Esses vem regidos pela Vibração de Oxalá , tendo Xangô como Patrono sendo sempre muito bem recebidos.


De acordo com o pesquisador Camille Flammarion, cada falange é composta de cerca de 400.000 espíritos que se apresentam com o nome do chefe da falange. 


Assim, a falange do caboclo Pena Branca, por exemplo, é composta de 400.000 entidades que se apresentam nos terreiros com esse nome. 


Isso explica porque podemos encontrar entidades de mesmo nome atuando em locais diferentes à mesma hora, ou até mesmo no mesmo local. 


As entidades trabalham em multiplicidade, cada uma conservando o nome e as características do chefe da falange que compõem. 


Essa explicação também se aplica aos Pretos Velhos, Crianças, Exus e Bombogiras.

domingo, 26 de abril de 2015

Seguir em frente...

**Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final...

Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.
O que passou não voltará: não podemos ser 
 eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.

As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora...

Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.

Tudo neste mundo visível é uma manifestação do mundo invisível, do que está acontecendo em nosso coração... e o desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar.

Deixar ir embora.
Soltar.
Desprender-se.

Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.

Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".

Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.

Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos.
Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.
Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..

E lembra-te:
Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão


(FERNANDO PESSOA)
 

sábado, 25 de abril de 2015

Conversa com o Caboclo

Uma conversa no intimo com o caboclo de Oxossi , " FOLHA VERDE".
Caboclo eu te peço, por favor, não deixe os problemas alheios na minha mente ao final da gira.
*somente o que for necessário a sua evolução filho.

Caboclo me lembro que estávamos ao final dos trabalhos e um irmão muito querido estava ao nosso lado e já havia se despedido de seu guia e vi que vós caboclo, pediu um elemento material para sua magia , não Me lembro se foi pemba , charuto ou vela.
*foi uma vela filho.

E este irmão acocorou-se em sua vaidade e disse que deverias pedir a algum cambono.
Caboclo fiquei tão entristecido , decepcionado , meu irmão sentiu-se tão superior aos demais trabalhadores , se esqueceu que a pouco tempo éramos cambonos  , e comentávamos sobre a  necessária humildade do médium.
* sim filho ele se esqueceu ou na aprendeu que todos são médiuns e todos são cambonos .
Que todos são trabalhadores , estão para servir a espiritualidade , más filho não há melhor lugar para se aprender a lição que na escola. Não é mesmo?

Sim caboclo , me lembro muito bem que nossa querida mãe espiritual se aproximou , com aquela sua meiguice, e com seu gesto habitual , as mãos unidas como que em oração , ela se chegou e disse a vós – salve suas forças Caboclo , agradeço a sua presença em nossa casa tem algo que queira e eu possa te ajudar ?  tu agradeceste e dissestes que não.
*Sim filho.

Caboclo a nossa querida mãe espiritual demonstrou tudo aquilo que faltou ao meu irmão: humildade e devoção , eu estava inteiro ali contigo e quase chorei ,
 este gesto dela resumiu muitos tratados e teses literárias sobre a UMBANDA que eu já tenha lido
Caboclo isto foi muito significativo  Más eu repuxei os olhos e observei meu irmão e ele esta distraído , conversando alguma bobagem e rindo.
A lição ali expressa não valeu de nada paizinho, ele não percebeu nem assimilou o que se passou neste instante mágico que marcou tanto a este teu filho.
O lindo gesto de nossa mãe lhe passou em branco , caboclo foi em vão! Não tocou a quem deveria.
*FILHO preste atenção , o terreiro é um templo apenas para os sinceros.
 Trabalho duro é uma benção para os humildes.
A evolução espiritual acontece no silêncio de Tua introspecção.
Na simbiose perfeita do seu corpo mediúnico com o astral.
A lição foi aprendida.
A lição filho,!

 ela foi para vc !
  Filho meu !.

Não olhe mais para os lados filho, com os olhos do julgamento, apenas sinta o bater dos corações .

 Olhe para dentro e para frente, e me verás,
 respire fundo e sinta a minha presença em ti todos os momentos, te amparando te protegendo e andando contigo neste longo e largo caminho sem fim , o da  evolução espiritual,
 vou repetir para que não se esqueças mais filho meu ,

 "a evolução espiritual acontece no silêncio de tua introspecção"...

 Sim caboclo agora entendi, !obrigado caboclo.
salve .

Devemos sim olhar a estes irmãos como os nossos guias olham a todos os espíritos encarnados ou desencarnados que baixam em nossos terreiros, Com compaixão.
Claro que nós encarnados não somos santos.

Más naquele momento único do trabalho espiritual nós temos um contato direto com seres divinos, então temos uma responsabilidade maior, por que  nos é dado este mérito. Pelos exemplos.
É como me disse meu mestre amigo (Alê Cumino), não somos divinos, más naquele momento único da incorporação nós nos “divinificamos”.
De que nos vale toda a razão se ela não vier recheada pela compaixão; se não trouxer harmonia e paz aos corações.

Para conseguirmos uma sintonia fina com "canais" superiores precisamos de : humildade, simplicidade, e pureza de pensamentos, sentimentos e ações.
Não somos melhores que os outros, más estamos no caminho 

evolutivo e nos sentimos privilegiados, devemos sim agradecer a 

corrente espiritual que nos atende pelas oportunidades, que  ajuda-

nos ao desapego material, e ao vislumbre do espiritual.


. A UMBANDA  ENSINA O RESPEITO AS DIFERENÇAS . por tanto pratiquemos.

ENSINA QUE A OBSERVAÇÃO É NECESSÁRIA PARA FORMARMOS NOSSOS CONCEITOS, MÁS O JULGAMENTO NÃO.
POIS  EXISTE A LEI E A JUSTIÇA DIVINA, E SEUS APLICADORES.
E DESTA NINGUÉM ESCAPA.
.
OKÊ CABOCLO.
SARAVÁ UMBANDA!

por ANTONIO BISPO 

Meu bondoso Preto-Velho!




Aqui estou de joelhos, agradecido constrito, aguardando sua benção.

Quantas vezes com a alma ferida, com o coração irado, com a mente entorpecida pela dor da injustiça eu clamava por vingança, e Tu, oculto lá no fundo do meu Eu, com bondade compassiva me sussurravas: ESPERANÇA.

Quantas vezes desejei romper com a humanidade, enfrentar o mal com maldade, olho por olho, dente por dente, e Tu, escondido em minha mente, me dizias simplesmente:

"Sei que fere o coração a maldade e a traição, mas, responder com ofensas, não lhe trará a solução. Pára, pensa, medita e ofereça-lhe o perdão. Eu também sofri bastante, eu também fui humilhado, eu também me revoltei e também fui injustiçado. 

Das savanas africanas, moço, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado, nenhuma oportunidade eu tive. Uma revolta crescente me envolvia intensamente, porque algo me dizia, que eu nunca mais veria minha Aruanda de então, não ouviria a passarada, o bramir dos elefantes, o rugido do leão, minha raça de gigantes que tanto orgulho tivera, jazia despedaçada, nua, fria, acorrentada num infecto porão.

Um ódio intenso o meu peito atormentava, por que OIÀ não mandava uma grande tempestade? Que Xangô com seus raios partisse aquela nave amaldiçoada, que matasse aquela gente, que tão cruel se mostrara, que até minha pobre mãezinha, tão frágil, já tão velhinha, por maldade acorrentara. E Iemanjá, onde estava que nossa desgraça não via, nossa dor não sentia, o seu peito não sangrava? Seus ouvidos não ouviam a súplica que eu lhe fazia? Se Iemanjá ordenasse, o mar se abriria, as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperança, e aos que nos escravizavam, a necessária vingança.

Porém, nada aconteceu, minha mãezinha não resistiu e morreu; seu corpo ao mar foi lançado, o meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra cá, outros pra lá e, como gado, com ferro em brasa marcado. 

Onde é que estava Ogum? Que aquela gente não vencia, onde estavam as suas armas, as suas lanças de guerra? Porém, nada acontecia, e a toda parte que olhava, somente um coisa via... terra.

Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados. 

Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro, era a lida, era a colheita, que para nós era estafa, para o senhor era ouro.

Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos aprendia, que o nosso destino no fim não seria sempre assim, quantas vezes me disseram que Zambi olhava por mim...

Bem me lembro uma manhã, que o rancor era grande, vi sair da casa grande, a filha do meu patrão. Ingênua, desprotegida, meu pensamento voou: eis a hora da vingança, vou matar essa criança, vou vingar a minha gente, e se por isso morrer, sei que vou morrer contente. 

E a pequena caminhava alegre, despreocupada, vinha em minha direção, como a fera aguarda a caça, eu esperava ansioso, minha hora era chegada. Eu trazia as mãos suadas, nesse momento odioso, meu coração disparava, vi o tronco, vi o chicote, vi meu povo sofrendo, apodrecendo, morrendo e nada mais vi então. Correndo como um possesso, agarrei-a por um braço e levantei-a do chão.

Porém, para minha surpresa, mal eu ergui a menina, uma serpente ferina, como se fora o próprio vento, fere o espaço, errando, por minha causa, o seu bote tão fatal; tudo ocorreu tão de repente, tudo foi de forma tal, que ali parado eu ficara, olhando a serpente que sumia no matagal. 

Depois, com a criança em meus braços, olhei meus punhos de aço que deviam matá-la... olhei seus lindos olhinhos que insistiam em me fitar. Fez-me um gesto de carinho, eu estava emocionado, não sabia o que falar, não sabia o que pensar. 

Meus pensamentos estavam numa grande confusão, vi a corrente, o tronco, as minhas mãos que vingavam, vi o chicote, a serpente errando o bote... senti um aperto no coração, as minhas mãos calejadas pelo machado, pela enxada, minhas mãos não matariam, não haveria vingança, pois meu Deus não permitira que morresse essa criança. 

Assim o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, até que um dia chegou, e Benedito acabou...

Mas, do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor e de perdão, os sofrimentos de outrora já não importam agora, por que nada foi em vão...

Fomos mártires nessa vida, desta Umbanda tão querida, religião do coração, da paz, do amor, do perdão". 
sou pai BENEDITO.
.
SE ACHEGUE MI ZI FIO.


(Escrito por Pai Ronaldo Linares, em 20 de Outubro de 1964) 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Hoje, 23 de abril, é dia de São Jorge - Ogum na Umbanda

Ogum - São Jorge



Ogum é um dos orixás mais populares no Brasil. Perdeu, todavia, os atributos de protetor da agricultura e da caça, que passaram a ser identificados exclusivamente com Oxóssi, e tornou-se conhecido sobretudo como deus da guerra, sendo sincretizado na Bahia com Santo Antônio de Pádua e nos outros Estados, especialmente o Rio de Janeiro, com São Jorge. Em função do sincretismo e da forte presença negra entre as tropas brasileiras, esses santos passaram a receber honras militares, o que incluía até mesmo patentes de oficial no Exército e na Marinha, com direito a soldo!

Cabe lembrar que os negros constituíam maioria entre os soldados e marinheiros que lutaram na Guerra do Paraguai. As tropas jamais deixaram de invocar a proteção de Ogum, seja diretamente ao orixá, seja na forma de São Jorge, o que talvez explique algumas expressões presentes nos pontos cantados, como Ogum jurou bandeira nos campos do Humaitá. A hipótese se torna ainda mais forte quando lembramos que Humaitá é o nome de uma localidade onde ocorreu uma das mais importantes batalhas daquela guerra, sendo ao mesmo tempo o nome atribuído à região do mundo invisível - o orum- que se acredita seja a morada de Ogum.


O Santo-Guerreiro vencedor de demanda

No que diz respeito ao culto dos orixás, a grande diferença entre o Candomblé, que preserva mais fielmente as raízes africanas, e a Umbanda, resultado do sincretismo com cultos cristãos e ameríndios, é que, nesta última, eles não são mais vistos como seres com atributos humanos, mas como campos de força impessoais que manifestam diferentes facetas da energia divina e dentro do qual atuam entidades dos mais diversos níveis evolutivos, em missões específicas. O Ogum da Umbanda não é mais o violento e destemperado guerreiro africano, que "come cachorro" e "lava-se com sangue". Transforma-se no guerreiro divino, empenhado no combate ao mal, e no vencedor de demandas, que apóia os homens em momentos de dificuldade. Na Umbanda Popular, a identificação de São Jorge com Ogum é uma constante. A própria aparência do orixá se modifica: em vez do akorô, o capacete; em vez do mariuô, o manto e o escudo de guerra.


Nos pontos cantados, o simbolismo de Marte
Os pontos (cantigas litúrgicas) dedicados a Ogum revelam, para além da simplicidade e trivialidade de seus versos, um sentido alegórico mais amplo, que tanto remete aos fundamentos da cosmovisão afrobrasileira quanto a inesperadas conexões astrológicas, como veremos a seguir. Analisemos alguns pontos:

Ô Jorge, Ô Jorge,
vem de Aruanda
pra salvar os vossos filhos
no terreiro de Umbanda.
Ogum, Ogum,
Ogum meu pai,
o senhor mesmo é quem diz:
filho de Umbanda não cai.

Aqui, como em muitos outros pontos, Ogum aparece identificado com São Jorge, o santo guerreiro do catolicismo. O simbolismo, aliás, não poderia ser mais adequado: São Jorge veste uma armadura de guerra (a proteção necessária para atuar em ambientes inferiores) e monta um cavalo branco (as forças da matéria e o lado animal da personalidade, já purificados - por isso a cor branca - e colocados a serviço de desígnios elevados). Utiliza a lança e a espada (um símbolo do direcionamento da energia) e consegue vencer o dragão (as forças das trevas).

Jorge, ou melhor, Ogum, vem de Aruanda - termo banto que significacéu ou plano espiritual - para ajudar seus filhos.


Ogum Yara, ou a união do Fogo e da Água

Se meu pai é Ogum
vencedor de demanda
ele vem de Aruanda
pra salvar filhos de Umbanda.
Ogum, Ogum Yara,
salve os campos de batalha,
salve as sereias do mar,
Ogum, Ogum Yara.

Os quatro primeiros versos confirmam as mesmas idéias já expressas nos pontos anteriores, acrescentando mais uma: a de Ogum como vencedor de demandas.

Demanda é termo muito utilizado em terreiros, significando luta entre orixás (que, no plano mítico, representavam as lutas tribais entre nações africanas) e, num sentido mais amplo, desentendimentos, conflitos, obstáculos colocados intencionalmente no caminho do indivíduo e agressões de toda espécie (inclusive as de natureza psicológica ou energética).

A expressão salve os campos de batalha pode causar uma certa estranheza, por sugerir, à primeira vista, um elogio à violência. Refere-se, entretanto, à própria vida, um campo de batalha onde os homens lutam permanentemente para vencer suas tendências inferiores. Como disso depende o crescimento espiritual, a luta é considerada bem-vinda e necessária.

A cultura afrobrasileira, à semelhança da Astrologia, faz referência constante aos quatro elementos da natureza, que seriam assentamentos da energia dos orixás. Por assentamento entenda-se um suporte material, que pode ser orgânico ou inorgânico, de estrutura simples ou complexa, que guarda uma relação de analogia, contigüidade ou semelhança de atributos com princípios de ordem não material, e que, por este motivo, servem de veículo à manifestação destes. Assim, por exemplo, a água dos rios, lagos e oceanos limpa, refresca, acalma, nutre e protege, guardando analogia direta com o modo de atuar de alguns orixás femininos também relacionados à nutrição, a proteção e ao apaziguamento, como as maternais Iemanjá, Oxum e Nanã.

Há orixás profundamente ligados ao elemento Terra e a seus valores, como a estabilidade e a prudência. É o caso de Obaluaiê e de Oxalufã, a manifestação "velha" de Oxalá. Outros identificam-se, no todo ou em parte, com o elemento Ar, como os que regem as florestas e o processo de fotossíntese (Oxóssi é um bom exemplo) ou associam-se com o movimento e a imaterialidade, como os ibejis (as crianças gêmeas), sincretizados no Brasil com os santos católicos Cosme e Damião. Já Ogum é o mais típico e mais puro representante do elemento Fogo. Entretanto, da mesma forma como, na carta astrológica, o regente de um signo de Fogo pode situar-se em signo de outro elemento (um Sol em Capricórnio ou um Júpiter em Libra), o orixá assume, nos mitos que o apresentam, nuances de todos os elementos e atributos de todos os princípios da natureza.

Yara é palavra tupi-guarani que significa senhor, proprietário. Ogum Yara é o Ogum que trabalha em associação com o orixá feminino Oxum, combinando a vibração purificadora do fogo com a das águas de rios e cachoeiras. O ponto faz ainda uma referência a Iemanjá quando fala dassereias do mar, tradução sincrética de entidades da mitologia africana que manipulam energias benéficas existentes no fundo dos oceanos.

O ponto pode ser entendido, então, como uma invocação ou pedido de ajuda a uma certa legião de Oguns, cujos integrantes são capazes de mobilizar, simultaneamente, energias pertencentes aos elementos Fogo e Água.


O sete e a varinha mágica de Ogum

Eu tenho sete espadas 
pra me defender,
eu tenho Ogum 
em minha companhia.
Ogum é meu pai,
Ogum é meu guia,
Ogum é meu pai,
venha com Deus
e a Virgem Maria.

Ogum tem estreita relação com o número sete, o que é explicado por duas lendas iorubanas. Na primeira, ele aparece como o guerreiro - filho de Odudua, rei de Ifé - que conquista a cidade de Irê e assume o título de Oni(senhor ou rei). Em torno de Irê havia sete aldeias, hoje desaparecidas. Por essa razão, acreditava-se que Ogum fosse composto por sete partes, uma para cada aldeia conquistada. Em iorubano, sete é mejê, de onde resultou a expressão Ogum Mejê (O Ogum que são sete, ou o Ogum composto de sete partes). É a ele, portanto, que o ponto é dedicado.

A outra lenda fala do casamento entre Ogum e Oiá. Ogum tinha uma vara mágica, feita de ferro (metal que lhe está associado), que tinha a propriedade de dividir em sete partes os homens e em nove partes as mulheres que tocasse. Em sua oficina de ferreiro, Ogum confeccionou uma vara igual e deu-a de presente a Oiá. Algum tempo depois, porém, Oiá fugiu com Xangô e foi perseguida pelo furioso marido traído. Quando se encontraram, entraram em combate com suas varas mágicas, dividindo-se Ogum em sete parte e Oiá em nove. Por isso ela é chamada de Iansã, termo composto de duas palavras iorubanas: Iá ou Inhá (mãe) e messan (nove).

Se voltarmos aos mitos do Ares grego, vamos encontrar um de grande interesse. Ares estava sempre em combate com a deusa Atena (assim como Ogum e Oiá). Conta uma lenda que certa vez, ao rebater um golpe de Ares, Atenas tomou uma pedra negra e bateu com tanta força nas costas de Ares que este cambaleou e caiu de forma tal que seu corpo, na queda, cobriu uma área de oitenta e quatro pés quadrados. Ora, 84 é igual a 12 vezes 7. Trata-se de um simbolismo que retrata o percurso turbulento de Marte por todos os signos do zodíaco!

A espada está ligada ao orixá de três formas: por ser guerreiro e caçador, Ogum rege as armas em geral; por ser ferreiro, é fabricante de objetos de metal; e, finalmente, é o orixá regente do ferro, matéria-prima para a maioria das armas. Como símbolo, a espada representa a energia mobilizada e direcionada para cortar o avanço do mal. Basta lembrar uma outra lenda, criada num ambiente bem diferente do que estamos tratando: a história céltica do Rei Artur que, munido da espada mágica Excalibur e sob a orientação de um iniciado, o Mago Merlin, combate as forças malignas acionadas por temíveis feiticeiros. Excalibur é o instrumento do combate da magia branca contra a magia negra. A espada de Ogum tem o mesmo significado.

Cabe observar também que o ferro é o elemento químico essencial para a formação dos glóbulos vermelhos. Da mesma forma como sua carência torna o indivíduo anêmico, a carência da raiz energética de Ogum cria uma espécie deanemia espiritual, ou seja, uma falta de coragem e de disposição para lutar pelo próprio desenvolvimento. É por causa dessa função revitalizadora que Ogum é apresentado nos mitos africanos como o orixá que vem na frente, o pioneiro na tarefa de descer à Terra e acordar os homens. Trata-se, evidentemente, de uma função típica de Áries e Marte.

O orixá mostrado neste ponto não é, certamente, o guerreiro selvagem e violento de alguns mitos iorubanos: é um campo de energias poderosas, mas a serviço de desígnios superiores (ele vem com Deus) e movida pela compaixão com os que sofrem (ele vem com a Virgem Maria).


      Ogum ressurge como São Jorge

Ogum, erga a sua espada,
levante a sua lança 
para nos defender.
Nos dê proteção com seu escudo
toda vez que o inimigo nos aborrecer.
Nos cubra com o seu sagrado manto,
sua bandeira tão gloriosa (...)
Atire as patas do seu cavalo
contra o dragão e a serpente venenosa (...)

Típico produto da Umbanda Popular, já distante de qualquer influência africana, o ponto apresenta Ogum na forma sincretizada de santo guerreiro (a bandeira e o manto não são atributos de Ogum, mas de São Jorge). A letra, de cativante ingenuidade, mostra os sentimentos do povo brasileiro em relação ao seu orixá: ele é o herói mítico, o paladino que vem em defesa daqueles que enfrentam as forças do mal.

Nas práticas mais primitivas do sincretismo afrobrasileiro, Ogum muitas vezes é invocado como se fosse uma espécie de guarda-costas celeste, um orixá que, se devidamente agradado, tomará partido em favor do filho de fé e voltará sua fúria contra os inimigos. Essa visão simplista está presente, por exemplo, no comportamento do personagem principal do filme O Amuleto de Ogum, de Nelson Pereira dos Santos, um marginal que recorre à ajuda de um terreiro para que Ogum lhe feche o corpo contra as balas dos inimigos.

As concepções mais elaboradas, entretanto, não vêem o orixá como um ser a serviço dos interesses do homem, nem disposto a tomar partido em seus conflitos. Em essência, as lutas de Ogum processam-se dentro da própria alma, que traz simultaneamente o dragão e a serpente das tendências inferiores assim como o germe da Divindade. Invocar Ogum significa ativar as energias vitais que estão adormecidas na alma, despertar a parcela divina presente em cada ser humano e mobilizar a força necessária para avançar.


A Lua como campo de batalha

Cavaleiro supremo,
mora dentro da lua.
Sua bandeira divina,
manto da Virgem pura.

A lenda de São Jorge, que não tem qualquer origem no culto dos orixás, mas sim no Cristianismo Popular, atribui-lhe o domínio da Lua, onde ele estaria em permanente combate com o dragão. É interessante notar que o símbolo da Lua, do ponto de vista astrológico, não é o desenho da Lua Cheia, mas do Crescente, que é formado por dois semi-círculos. Enquanto o círculo - o Sol - representa o espírito enquanto instância permanente e perfeita, o semicírculo é a alma, ou seja, o espírito ainda submetido às experiências da evolução, aprisionado nas sombras da própria ignorância e no vendaval das paixões ainda não dominadas. A Lua não tem brilho próprio, apenas refletindo a luz do Sol. Da mesma forma, para tomar de empréstimo uma concepção do pensamento hinduísta, a alma que perambula nas experiências de aprendizagem expressa apenas um reflexo provisório de sua verdadeira identidade, que só brilhará de forma pura quando o espírito transcender o ciclo das reencarnações e alcançar os planos mais elevados da absoluta ausência de forma, no mental superior.

Há um ditado do Catolicismo Popular que afirma que Maria é o atalho para Jesus. Da mesma maneira, muitos astrólogos medievais viam a Lua como um caminho para o Sol, assim como, na concepção hinduísta, a vida sob o domínio da emoção e dos sentimentos é a etapa necessária para a vida no plano da criação pura. Voltando aos astrólogos da Idade Média, era comum em textos da época a referência ao mundo sublunar para falar da mutável e inconstante realidade terrena, em contraste com a atemporalidade da perfeição espiritual simbolizada pelo Sol. Em todas as religiões antigas, a Lua e o Sol constituem um casal divino, cujo melhor exemplo é o mito de Ísis e Osíris no Egito. No sincretismo afrobrasileiro, a associação é com Iemanjá e Oxalá, identificados, aliás, com Nossa Senhora e Jesus Cristo.

Mas por que razão Ogum, orixá de conotação nitidamente masculina, assim como São Jorge, santo militar e pertencente a um universo dominado pelos homens, surgem tão freqüentemente relacionados à Lua e aos orixás femininos das águas, como Iemanjá e Oxum? Há, pelo menos, duas explicações possíveis: em primeiro lugar, as demandas que Ogum enfrenta pertencem todas ao domínio das paixões inferiores, como o ódio, a inveja, o ciúme e o egoísmo. A Lua, cuja permanente mudança de fases bem representa a instabilidade da alma humana, é o campo de batalha onde os instintos precisam ser vencidos para que brilhe a natureza solar. Em segundo lugar, podemos lembrar o princípio da complementaridade dos opostos: masculino e feminino são polaridades que não podem existir de forma exclusiva, sem a complementaridade do outro pólo.

Ogum, que carrega consigo tantas qualidades positivamente masculinas, como a força, a coragem, a energia do fogo e a carga de agressividade necessária para qualquer realização, precisa do tempero da receptividade, da doçura, da paciência e da devoção, atributos femininos dos orixás das águas. Sem esse tempero, o resultado é desequilíbrio. Os mitos africanos, ao mostrarem um Ogum guerreiro, violento, destruidor e, ao mesmo tempo, incapaz de compreender a alma feminina (ele perde, sucessivamente, suas esposas para Xangô), não estão falando verdadeiramente do orixá, mas de sua manifestação imperfeita e desequilibrada no próprio ser humano. Na medida em que as qualidades precisam ser integradas e harmonizadas, os conflitos míticos entre os orixás dramatizam exatamente a luta por essa integração interior, na busca da totalidade psíquica.

O Ogum do sincretismo afrobrasileiro, que trabalha harmoniosamente associado a Oxum e Iemanjá, como demonstram os pontos, já expressa, pois, uma concepção mais integrativa do que aquela presente nas lendas iorubanas.

O ponto atribui uma característica feminina à bandeira de São Jorge: não é mais o estandarte de guerra, mas o próprio manto da Virgem. Em todos os pontos em que Ogum aparece associado ao princípio feminino, seja sob a forma da Virgem Maria, de Iemanjá ou de Oxum, o sentido é sempre o da força dirigida pela sabedoria, a energia de luta colocada a serviço da misericórdia. Trata-se de um belo simbolismo que reúne elementos das tradições cristã e iorubana.


          O Santo-Guerreiro nos quatro elementos

Em plena mata virgem
eu vi um cavaleiro
com seu cavalo branco 
vindo da macaia.
É nas ondas do mar,
é no clarão da Lua.
Auê, vamos saravar Ogum Mejê,
Saravá Rompe-Mato,
Olha Ogum Beira Mar,
Ogum de Lei.

Macaia é palavra banta, originária do dialeto kikongo (do antigo Congo), significando folhas sagradas. Pode ser traduzida também por mata sagrada (o lugar da mata reservado à realização de rituais) ou, dependendo do contexto, por fumo. No ponto ora em análise, o sentido dos quatro primeiros versos é, então:

Eu estava na mata virgem (território de Oxóssi) quando vi surgir, vindo de seu local mais sagrado (um plano superior), São Jorge em seu cavalo branco(uma entidade de Ogum de grande elevação).

O sentido dos dois versos seguintes já foi explicado no ponto anterior: são as energias de Ogum que surgem mescladas às de Iemanjá.

No sétimo verso, surge a expressão auê, que vem do iorubano àwé, ou seja, meu amigo. É uma saudação amistosa dirigida a desconhecidos e utilizada para todos os orixás. Aparece também o verbo saravar, que é simplesmente o mesmo que salvar, ou saudar, no português estropiado falado pelos primeiros escravos bantos (A palavra é puramente brasileira e não tem nada de africana. Dizer Saravá! é dizer salve!). Em seguida, relacionam-se quatro diferentes manifestações do orixá: Mejê, ou o Ogum que são sete, ligado a Iansã; Rompe-Mato, ou aquele que trabalha ligado a Oxóssi e Ossãe;Beira-Mar, que atua em conexão com Iemanjá; e Ogum de Lei, cujo nome vem do iorubano Delé, o que toca o solo. É o Ogum ligado à terra, ao chão. No mesmo ponto, aparecem, pois, todas as forças da natureza, ou todos os elementos astrológicos:

Ogum Beira-Mar - Marte em signos de Água (Câncer e Peixes).

Ogum Mejê - Marte em signos de Fogo, especialmente Áries - é o Ogum do ferro e das armas, que troca energias com a também guerreira Iansã.

Ogum Rompe-Mato - Marte em signos de Ar, especialmente Libra (a ligação com Oxóssi, um princípio agregador e civilizador, com muitos atributos venusianos) ou Aquário (a conexão com Ossãe, orixá do conhecimento fitoterápico, com muitos atributos do espírito inventivo e científico associado a este signo).

Ogum Delé - Marte em signos de Terra e relacionados com sua natureza estabilizadora, como Touro.


Como o Brasil vive seu Marte

As tradições referentes a São Jorge e a Ogum começaram a firmar-se no Brasil ainda no período colonial, o que permite que procuremos o molde astrológico desses cultos no mapa-matriz de todo o período pré-independência: a carta do Descobrimento, que corresponde ao momento em que a esquadra de Cabral fez o primeiro avistamento da terra, ao largo da costa baiana, nas imediações do Monte Pascoal. Em outros artigos, já apresentamos uma versão retificada desta carta para as 16h53 LMT do dia 22 de abril de 1500, com o Ascendente em 28º48' de Libra e o signo de Escorpião interceptado na casa 1 (um signo interceptado é aquele que está totalmente contido dentro de uma casa e sem contato com sua cúspide, ou ponto inicial). A outra hipótese, defendida, por exemplo, por Raul Martinez, seria aquela de um Ascendente Escorpião para o mapa do Descobrimento. Em qualquer das duas versões, a casa 9 (crenças, religiões, ética) apresenta como único ocupante o planeta Marte, no primeiro grau do feminino e lunar signo de Câncer. Marte está em trígono exatamente com a Lua em Peixes, regente de Câncer, e com Urano no último grau de Aquário, posição muito próxima do Ascendente da carta da Independência, da qual este Urano é regente.

Marte em Câncer na casa das crenças e religiões já indica que, desde o alvorecer da formação do país, haveria de impor-se o culto a um princípio marciano - um "deus-guerreiro" - temperado pela natureza maternal da Lua. Do vasto conjunto de santos católicos, aquele que melhor preenchia tais características era exatamente São Jorge em sua concepção de "vencedor de demandas" sob a proteção do estandarte da Virgem Maria (o trígono com a Lua em Peixes). Esta Lua identifica-se também com Iemanjá, a divindade do estuário dos rios da Nigéria, que no Brasil transformou-se em Rainha do Mar(Peixes, signo da vastidão oceânica). A participação de Urano na configuração mostra que tais cultos - a Iemanjá, a Ogum, a São Jorge e a Nossa Senhora - tendiam (e ainda tendem) a gerar uma síntese criativa, apta a afastar-se cada vez mais dos modelos originais e a permitir a formulação de uma expressão religiosa própria, tipicamente nativa, mediante o livre aproveitamento de elementos das raízes européia, africana e indígena. Observe-se que Urano e Lua ocupam a casa 5, da criatividade e também dos afetos. A religiosidade brasileira está vocacionada para um desprendimento das amarras institucionais, ganhando uma dimensão intimista, libertária e afetiva. Aliás, cabe observar também que o Meio-Céu do mesmo mapa está em Câncer e que seu regente, a Lua, encontra-se em Peixes. Sendo dois signos aquáticos e femininos, não é de estranhar que o país tenha como padroeira (um sentido de casa 10) Nossa Senhora Aparecida, uma virgem negra cuja imagem foi encontrada no século XVIII por humildes pescadores no rio Paraíba, na mesma região onde hoje ergue-se a basílica de Aparecida do Norte.

Como toda configuração astrológica comporta expressões positivas e negativas, Marte em Câncer na 9 também fala de combate por questões religiosas e da agressividade com que a Igreja Católica se impôs em alguns momentos da vida colonial, em estreita associação com o poder dos administradores portugueses (trígono com a Lua, regente do Meio-Céu, ponto que simboliza a autoridade do governante). As conversões forçadas, as manifestações de intolerância religiosa e a violência contra índios e escravos em nome da fé também estão no escopo da configuração.

Mas a Igreja Católica teve na colônia, por outro lado, representantes de elevada estatura moral e profundo amor pela terra e sua gente. O exemplo mais evidente foi o do jesuíta José de Anchieta, um doce se bem que enérgico espanhol cuja dedicação a história registrou atribuindo-lhe o título de Apóstolo do Brasil. Anchieta tinha Marte no primeiro grau de Câncer ou nos últimos minutos de Gêmeos (nasceu em 19 de março de 1534, horário desconhecido) e, de todas as formas, em conjunção muito próxima com o Marte do Descobrimento e com a cúspide da casa 9 desta mesma carta. Anchieta utilizava o teatro e a música em seu trabalho de catequese - foi dramaturgo e compositor - o que corporifica outro sentido do trígono entre Marte na 9 e Lua-Urano na 5 na carta do Descobrimento: a associação entre arte e religiosidade durante todo o período colonial. Tal potencial realizou-se tanto através do Catolicismo dominante (basta pensar na arte sacra de Aleijadinho e do padre-compositor José Maurício) quanto dos cultos dos escravos, que resultaram em um manancial de referências estéticas até hoje explorado pela música popular, pela dança e pela pintura.


Conclusões

A simbologia astrológica fala de necessidades e de princípios universais, mas cada cultura cria suas próprias formas de manifestar o significado de signos, planetas e casas. Como as culturas são como organismos vivos, onde cada elemento ajusta-se aos demais e responde às necessidades de adaptação ao meio ambiente, as particularidades da formação cultural geram traduções de conteúdos astrológicos que não são absolutamente intercambiáveis, se bem que guardem analogias entre si. Assim, não há como tomar o panteão dos deuses da mitologia greco-romana e encontrar, para cada um, uma correspondência exata nas lendas da Europa cristã, ou na mitologia afro-ameríndia. A lenda de São Jorge, por exemplo, guarda ecos dos mitos relacionados ao Ares grego e ao Marte Romano, assim como os mitos de Ogum encontram ressonância na história do santo cristão. Todos expressam valores de Marte, mas sempre com nuances locais, que respondem às necessidades específicas da comunidade que os cultua.
O Brasil, em 500 anos de história, já elaborou suas próprias sínteses, que são tão ricas do ponto de vista simbólico quanto aquelas originárias da velha civilização grega. Neste sentido, entender o significado de São Jorge e de Ogum para o povo brasileiro é entender também como o princípio simbolizado por Marte é vivenciado nestas paragens tropicais.