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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Sincretismos e Religiões

“Nada há de novo abaixo do Sol.”
Material comentado e organizado por Alexandre Cumino
Para o livro Deus, Deuses, Divindades e Anjos publicado pela Editora Madras 
Sincretismo consiste em unir dois ou mais valores para alcançar um terceiro valor, o sincretismo religioso está muito ligado às culturas, pois valores de duas ou mais culturas se unem quando nasce uma nova religião.
Vejamos por exemplo na Umbanda, uma religião brasileira, que tem culto aos Orixás,  divindades africanas da cultura Nagô,  e aos Santos, da cultura católica. Jesus Cristo e Oxalá são cultuados em um sincretismo tão forte que Jesus passa a ser Oxalá e Oxalá passa a ser Jesus. Aqui também surgem polêmicas onde nem todos aceitam o sincretismo desta forma, para muitos Jesus apenas representa Oxalá, para outros vice e versa e para terceiros os dois, Oxalá e Jesus, caminham juntos sem perder sua individualidade. Assim é o sincretismo na Umbanda que aparece identificando:
Jesus Cristo com Oxalá
Nossa Senhora da Conceição com Oxum
São Sebastião com Oxossi
São Jerônimo com Xangô
São Jorge com Ogum
São Lázaro com Obaluayê
Santa Clara com Logunan
São Bartolomeu com Oxumarê
Joana D’Arc com Oba
Santa Bárbara com Iansã
Santa Sara kaly com Egunitá
Santa Ana com Nanã Buroquê
São Roque com Omulu
Cosme e Damião com Ibeji
Na cultura brasileira existe o sincretismo cultural, que aparece em “síntese”[1] na Umbanda, como um espelho que mostra as culturas do Negro (Cultura Africana), do Branco (Cultura Européia) e do Índio (Cultura Nativa); todas elas partes de um todo que é a Cultura Brasileira.
O que cria um ritual marcado por estas influencias, com muita musicalidade tocada por atabaques, rezas para Santos e Orixás, uso de terços e de colares de contas (guias), a valorização da natureza com a visão do índio que adora Tupã, o uso de ervas com banhos e defumação, uma forma simples de magia que mistura valores indígenas com o afro-brasileiro e muitos outros traços deste povo brasileiro.
Mas esta absorção cultural religiosa (sincretismo) não é uma exclusividade da Umbanda, o Judaísmo absorveu das culturas sumeriana, babilônica, acadiana e assíria em geral assim como a cultura cristã se alimentou da judaica e da grega, a cultura do islã pode absorver as culturas cristã e judaica, assim como todas elas tem uma influencia mais sutil também da quase extinta cultura persa, dos cultos zoroastristas. O Budismo nasce em solo hindu, através de um príncipe guerreiro, Sidarta Gautama, o budismo tibetano recebe influencia diferente do budismo chinês, pois os valores que antecedem permanecem subentendidos e se unem a outros para criar a argamassa com a qual a nova religião é construída.  
Tudo se transforma e assim é com as religiões que para nascer se alimentam de outras religiões, até que ao atingirem certa “proporção”, que nem sempre corresponde á maturidade, passam aos conflitos de “adolescência” em relação à “Matriz” para então passarem a uma disputa aberta, na maioria dos casos, com objetivo de mostrar a supremacia de uma geração em relação a outra. A nova e vigorosa geração apresenta idéias inovadoras ou ainda, apenas, acredita, pensa, que suas idéias são novas e que está fazendo algo que ninguém teria feito antes.
Encontraremos muitos valores em comum nas religiões, muitas vezes chega a parecer que existe apenas uma única religião que se manifesta de formas diferentes, a Ordem Teosófica tem uma visão muito particular sobre esta questão onde a Teosofia é a “religião eterna” ou talvez “a religio-vera”, a “religião verdadeira” e mais adequadamente a “Religião da Sabedoria” que seria o ideal a que todas as religiões buscam. Para muitos este ideal religioso pode ter sido algo que perdemos em outras eras quando a humanidade possuía um nível superior de espiritualidade, como no mito de Atlântida ou da Lemuria. Na literatura de Rubens Saraceni encontramos esta cultura perdida no que é chamado de “Era Cristalina” (“Os Templos de Cristais”, “Hemissarê”, “O Guardião dos Caminhos” / Ed.Madras – Rubens Saraceni).
Helena P. Blavatsky, fundadora da Ordem Teosófica, uma das mais eruditas e influentes estudiosas e pesquisadoras de religião de todos os tempos, em seu Glossário Teosófico (Edotora Ground, quarta edição, 2000, com tradução de Silvia Sarzana) define Religião, Religião da Sabedoria e Teosofia de uma forma que apresenta muito bem esta idéia sobre um conhecimento eterno, que se manifesta nas diferentes religiões, mudando apenas a forma. Vejamos as definições de Blavatsky:
  • Religião – Apesar da imensa diversidade que oferecem do ponto de vista exterior, todas as religiões têm um fundo comum nas idéias dogmáticas, filosóficas e morais. De fato, o estudo comparado das religiões demonstra que os ensinamentos fundamentais sobre a Divindade, o homem, o universo, a vida futura, são substancialmente idênticos em todas elas, apesar de sua diversidade aparente. São as mesmas encobertas pelo véu próprio das religiões exotéricas que as desfiguram parcialmente. É como uma luz branca encerrada num farol, que tem, em cada um de seus lados, um vidro de cor diferente e, conforme o lado em que é olhada, parece vermelha, azul, verde ou amarela; retire os cristais e verá a mesma luz em sua pura cor natural. Esta base comum de todas as religiões dignas deste nome explica-se porque todas elas emanam da Grande Fraternidade de Instrutores Espirituais, que transmitiram aos povos e raças as verdades fundamentais da religião, sob a forma mais apropriada ás necessidades daqueles que deviam recebê-las, bem como ás circunstâncias de tempo e lugar. Por isso se disse, não sem fundamento, que a questão religiosa é principalmente uma questão geográfica; assim, uma pessoa é muçulmana  simplesmente porque nasceu na Arábia; católica, porque nasceu na Europa etc. Em sua missão sublime, os excelsos fundadores de religiões foram auxiliados por certo número de indivíduos iniciados e discípulos de diversos graus, homens eminentes por seu saber e por seus relevantes dotes morais. Outra causa poderosa do antagonismo entre aqueles que professam credos religiosos diferentes são as corrupções introduzidas por seus representantes, que os modificam e transformam a seu bel-prazer, impulsionados geralmente por interesses e egoísmo.
  •  Religião da Sabedoria – A única religião que serve de base a todos os credos existentes na atualidade. Aquela “fé” que, sendo primordial e revelada diretamente à espécie humana por seus Progenitores e pelos Egos que a instruem (por mais que a Igreja os considere como “anjos caídos”) não exige “graça” alguma ou fé cega para crer, porque era conhecimento. Nesta Religião da Sabedoria baseia-se a Teosofia.
 Teosofia (do grego, theosophia) – Religião da Sabedoria ou “Sabedoria Divina”. O substrato e base de todas as religiões e filosofias do mundo, ensinada e praticada por uns poucos eleitos, desde que o homem se converteu em ser pensador. Considerada do ponto de vista prático, a Teosofia é puramente ética divina. As definições da mesma encontradas nos dicionários são puros desatinos, baseados em preconceitos religiosos e na ignorância do verdadeiro espírito dos primitivos rosacruzes e filósofos medievais, que se intitulavam teósofos. [A palavra Teosofia não significa Sabedoria de Deus, mas Sabedoria dos Deuses ou Sabedoria Universal. Esta Sabedoria é a verdade interna, oculta e espiritual, que sustenta todas as formas externas da religião e seu pensamento fundamental é a crença de que o Universo é, em sua essência, espiritual; que o homem é um ser espiritual em estado de evolução e desenvolvimento e que a humanidade pode progredir na via da evolução através do exercício físico, mental, espiritual adequados, fazendo-a desenvolver as faculdades e os poderes que a tornarão capaz de ultrapassar o véu externo do que é chamado de matéria e passar a ter relações conscientes com a Realidade fundamental. A grande idéia, que serve de base para a Teosofia, é a Fraternidade universal e esta se encontra fundamentada na unidade espiritual do homem. A Teosofia é de uma só vez ciência, filosofia e religião e sua expressão externa é a Sociedade Teosófica. Opostamente ao que muitos acreditam, a Teosofia não é uma nova religião; é, por assim dizer, a síntese de todas as religiões, o corpo de verdades que constitui a base de todas elas. A Teosofia, em sua modalidade atual, surgiu no mundo no ano de 1875, porém é em si mesma tão antiga quanto à humanidade civilizada e pensadora. Foi conhecida por diversos nomes, que têm o mesmo significado, tais como Brahma-vidyâ (Sabedoria Suprema), Para-vidyâ (Sabedoria Suprema) etc. O motivo especial de sua nova proclamação em nossos dias foram os rápidos e perniciosos progressos do materialismo nas nações propulsoras da civilização mundial. Por esta razão, os guardiões da Humanidade acharam oportuno proclamar as antigas verdades numa nova forma adaptada à atitude e ao desenvolvimento mental dos homens da época e, assim como antes foram reveladas uma após outra as religiões, segundo a passagem de um a outro desenvolvimento nacional, assim, em nossos dias, as bases fundamentais de todas as religiões tornaram a ser proclamadas, de modo que, sem privar nenhum país das vantagens especiais que sua fé lhe proporciona, se deixará de ver que todas as religiões têm o mesmo significado e que são ramos de uma mesma árvore. A Teosofia apresenta-se, além disso, como base de filosofia de vida, porque possui vastíssimos conhecimentos sobre as grandes Hierarquias que preenchem o espaço; dos agentes visíveis e invisíveis que nos rodeiam; da evolução ou reencarnação, através de cuja virtude o mundo progride; da lei da casualidade ou da ação e reação, chamada karma; dos diversos mundos em que o homem vive, semeie e colhe, etc., etc., conhecimentos que resolvem, do modo mais racional e satisfatório, os árduos enigmas da vida, que sempre conturbaram o cérebro dos pensadores como desalento de seu coração. No campo da ciência, abre novos caminhos ao conhecimento. A Teosofia explica a vida, justifica as diferenças sociais entre homens e indica o meio para se retirar novos fatos do inesgotável armazém da Natureza. A Teosofia fornece também normas fundamentais de conduta aplicáveis à vida humana e levanta grandes ideais, que comovem o pensamento e o sentimento, para pouco a pouco redimir a humanidade da miséria, da aflição e do pecado, que são frutos da ignorância, causa de todo o mal. A dor e a miséria desaparecerão completamente de nossa vida, quando soubermos trocar a ignorância pelo conhecimento. Ante a Sabedoria nossas tribulações se desvanecerão, porque o gozo é peculiar e inerente à natureza íntima de que todos dela procedemos e a ela temos de voltar. A Teosofia, finalmente, não impõe qualquer dogma, nem força ninguém a acreditar cegamente nas verdades que ensina, mas faz outra coisa imensamente melhor: coloca o homem disposto a isso em condições de perceber diretamente, por si mesmo, tais verdades através do desenvolvimento de sua natureza espiritual, e com ela, o desenvolvimento de certas faculdades internas latentes na generalidade da espécie humana, que lhe permitem conhecer o mundo espiritual e as relações do homem com a Divindade. Pelo conhecimento íntimo de si mesmo, o homem se torna capaz de conhecer a Vida universal e suprema, uma vez que o Espírito humano é uma parte do Espírito universal (DEUS)...”
No Livro “A Vida Oculta e Mística de Jesus” de A. Leterre (Ed. Madras – 2004), encontramos logo no inicio de tal obra, em sua “Introdução” e “Explanação” textos que demonstram estas “igualdades” e “coincidências” entre as religiões, mostrando alguns elementos que foram claramente apropriados. O que choca é que muito raramente uma dá o braço a torcer de que tal valor foi “importado” de outra cultura ou culto religioso, já que a prática comum entre religiões é diminuir a outra e quando não até chegam ao ponto de “demoniza-la” fazendo com que seus fiéis creiam que as divindades alheias são “demônios”.
Vejamos algumas passagens da “Introdução” e “Explanação” desta obra impar para o estudo das religiões:
Gênese das Religiões
   
Admitimos por um momento que o nosso benévolo leitor, seja ele de que culto ou crença for, tivesse de fazer, como missionário, uma grande excursão pelos sertões de Mato Grosso.
       Chegado a um ponto das ínvias selvas, depara-se com uma tribo de selvagens ocupada em render preito e homenagem a uma entidade abstrata, que ela reconhece como Superior e como Criadora de tudo quanto a cerca.
        Essa entidade, ou anteriormente esse Deus, é representada por um boneco de barro exoticamente fabricado ou por um tronco de árvore cercado por enormes fogueiras, como as piras dos antigos templos, em volta das quais os silvícolas executam uma frenética dança ao som de flautas de bambu, acompanhada de estridentes berros à guisa de hinos maviosos.
       Que fará nosso missionário?
       Certamente procurará, com tempo e jeito, convencê-los de que laboram em erro e de que o verdadeiro Deus é aquele que ele mesmo adora, seja Jeová, Alá, Buda ou o Cristo do Calvário.
        É possível que, convencidos de que o estúpido boneco nada represente, eles passem a adotar o símbolo do nosso incansável missionário.
        Admitamos, porém, que outros missionários, de credos diferentes, venham também a passar por ali, sucessivamente, com intervalos assaz suficientes para dar tempo a que a nova crença se enraíze em seus pobres cérebros.
        Que sucederá?
         Sucederá que, ao cabo de alguns anos, digamos mesmo, de alguns séculos, essa tribo terá mudado várias vezes o modo de compreender esse Deus.
         Mas não se segue daí que toda a tribo, sem exceção de uma só alma, tenha permanecido fiel a cada crença que foi sucedida, e isso com unânime aprovação.
         É indubitável, dada a diversidade de mentalidades, que tenham surgido certas divergências no modo de encarar esse Deus e seus atributos, ou mesmo na maneira de cultuá-lo nas sucessivas crenças, resultando dali, então, as exegeses e os cismas que acabaram por dividir esses cultos em outros tantos cultos ou seitas contrários e inimigos, a ponto de se odiarem de morte.
         É exatamente o resultado verificado hoje na face desse pobre giroscópio.
         Os primitivos povoadores da Terra sentiram que tudo quanto viam devia ser o produto de uma força superior e inteligente e começaram, então, na opinião de alguns historiadores, a simbolizar essa força, já com um disco representando o Sol, como fonte de vida material, já com um tronco de árvore, de onde foram surgindo os esteios da cabana que se transformaram em coluna do Templo, etc.
         Pela observação e pelo estudo da natureza, movidos pelas necessidades vitais, as indústrias foram sendo criadas, as artes nasceram, a ciência se manifestou, até se condensar em Academia.

Revelação
         Foi então que a Religião fora revelada aos mais puros, nascendo dali o Templo, pois a Religião é o suspiro do homem, cuja resposta vem do céu e não da Terra.

        Que tivesse havido esta Revelação, está isso sobejamente confirmado por todas as religiões do mundo.

         Dupuis não crê na revelação, pois, segundo ele, só a razão humana é que tudo definiu; mas ele não reflete que essa Razão, que não é criação do homem, mas sim da Razão Suprema, que lhe deu em igualdade de grau para raciocinar e tirar conclusões justas e força de comparações, estudos e experiências, é que constitui, de fato, a Revelação Divina, seja por inspiração ou suposto acaso.

         No Manavadarma foi a Krishna; nos Vedas, a Buda; no Zenda-Avesta, a Zoroastro; nos livros Herméticos, a Hermes; nos Kings, da China, a Fo-Hi, a Lao-Tsé, a Confúcio; no Pentateuco, a Moisés; no Alcorão, a Maomé; no Livro de Jó , ao Pontífice ; nos Evangelhos, a Jesus.
Todos eles afirmam terem recebido a verdade, de Deus mesmo, como a expressão dos seus divinos decretos.
      
Confúcio, príncipe regente, repudiou tudo para dedicar-se ao sacerdócio, quando, aos 50 anos, recebia essa revelação.
         Daí a razão de ser Religião a Síntese da Ciência e não o contrário, o que seria absurdo.
         Charles Norman, sábio astrônomo do Observatório de Paris, sintetiza admiravelmente essa Revelação em poucas palavras:
“Na verdade, parece que nada manifesta a presença mística do divino, tanto quanto esta eterna e inflexível harmonia que liga aos fenômenos expressos por leis científicas.
A ciência que nos mostra o vasto Universo, concreto, coerente, harmônico, misteriosamente unido, organizado como uma vasta e muda sinfonia, dominada pela lei e não por vontades particulares, a ciência, em suma, não será uma revelação?”

É certo, e isso não pode sofrer a mais leve refutação, que a crença monoteísta, isto é, a de um só Deus Criador e Todo Poderoso, existiu desde uma antiguidade pré-histórica e descrita nos livros anteriormente citados, sendo de notar que os Sastras (Livros Sagrados da Índia) são anteriores de 1.500 anos aos Vedas que, por sua vez, têm mais de 6.000 anos .

Nos Vedas Lê-se o seguinte:
“Deus é aquele que sempre foi; Ele criou tudo quanto existe; uma esfera perfeita, sem começo nem fim é sua fraca imagem. Deus anima e governa toda a criação pela providência geral dos seus Princípios invariáveis e eternos. Não sonde a natureza da existência daquele que sempre foi; esta pesquisa é vã e criminosa. Basta que, dia a dia, noite a noite, suas obras manifestem sua sabedoria, seu poder e sua misericórdia. Trata de tirar proveito disso”.

O Rei da Babilônia, Nabucodonosor, orava do seguinte modo:

“Criador por ti, Senhor, eu te abençôo, tu me deste o poder de reinar sobre os povos segundo tua bondade. Constitui, pois, teu Reinado; impõe a todos os homens a adoração do teu nome. Senhor dos povos, ouve minhas preces. Que todas as raças terrestres venham às Portas de Deus” (Babilu =Babilônia).
      
Nos antigos livros da China (nos Kings) encontra-se o seguinte, transcrito pelo imperador Kang-ki e compilado por du Halde, p.41, da edição de Amsterdã:
“Ele não teve começo nem terá fim. Ele produziu todas as coisas desde o começo; Ele é quem governa como verdadeiro Senhor; Ele é infinitamente bom e infinitamente justo; Ele ilumina, sustenta e regula tudo com suprema autoridade e soberana justiça”.
“Se olharmos os olhos negros dos chineses, diz Max Muller, acharemos que ali também há uma alma que corresponde a de outras almas, e que o Deus que ele tem em mente é o mesmo que nos empolga o espírito, apesar do embaraço da sua linguagem religiosa”.
        
         Os druidas (Sacerdotes Celtas) diziam que Deus é por demais incomensurável para ser representado por imagens fabricadas por mãos de homens, e que seu culto não pode ser prestado entre muralhas de um templo; mas, sim, no santuário da natureza sob a ramagem das árvores ou nas margens do vasto oceano.
       Para os druidas, o símbolo da Vida e da Luz era representado pelo termo ESUS (Definição de Leon Denis – Le Génie Celtique et le Monde Invisible).
       Há neste termo uma curiosa aparência de analogia com o nome que pretendemos estudar neste ensaio.

       O Deus dos druidas era Be-il, de onde o Ba- al da Caldéia, ao qual juntaram Teutalés, similar de Thot-Hermes do Egito.
    
Foi São Judicael quem no século VII aboliu o Druidismo que ainda existia confinado nas florestas da Brocelianda.

       No Tibet, segundo o padre Huc, os Lamas dizem que:
“Buda é o ser necessário, independente, princípio e fim de tudo. É o Verbo, a Palavra. A Terra, os astros, os homens e tudo quanto existe são uma manifestação parcial e temporária de Buda. Tudo foi criado por Buda, no sentido de tudo dele como a luz vem do Sol. Todos os seres emanados de Buda tiveram um começo e terão um fim; mas, assim como eles saíram necessariamente da Essência Universal, eles terão de ser reintegrados. É como os rios e as cachoeiras produzidos pelas águas do mar que, após um percurso mais ou menos longo, vão novamente perder-se na sua imensidade. Assim, Buda é eterno; suas manifestações também são eternas”.

Lê-se no Livro dos Mortos do Antigo Egito:
“Eu sou aquele que existia no Nada; eu sou o que cria; eu sou aquele que se criara por si próprio. Eu sou ontem e conheço amanhã, sempre e nunca”.

         O Templo de Sais, antiga cidade do baixo Egito, trazia gravado em seu frontispício:
“Eu sou tudo que foi, que é e que será, e nenhum mortal jamais levantou o véu que me encobre”. Era o “Deus Desconhecido”.
         No México, em 1431, o rei Netzahualcóyotl  que, quando criança, havia escapado milagrosamente da degolação dos filhos machos, como sucedeu a Moisés, a Jesus e a outros reformadores, conforme veremos mais adiante, mandou construir templos, sendo o mais belo dedicado ao “Deus Desconhecido”. Dizia ele que os ídolos de pedra e de madeira, se não podem ouvir nem sentir, ainda menos poderiam criar o céu, a Terra e os homens, os quais devem ser obra de um Deus Desconhecido, todo-poderoso, em quem confiava para sua salvação e seu auxílio.
          Esse Deus Desconhecido do México deve ser o mesmo Deus Desconhecido que Paulo encontrou em Atenas, conforme se vê em Atos XVI, 23.
          O Ser Supremo dos Astecas era denominado Teotl; era impessoal e impersonificável; dele dependia a existência humana. Era a divindade de absoluta perfeição e pureza em quem se encontra defesa segura.
       
 Nos Livros de Hermes, escritos há mais de 6 mil anos, encontra-se o seguinte diálogo tido com Thoth, que bem define o espírito moral e intelectual daquelas eras:
      “É difícil ao pensamento conceber Deus e à língua de exprimi-lo. Não se pode descrever uma coisa imaterial por meios materiais; o que é eterno não se alia, senão dificilmente, ao que está sujeito ao tempo. Um passa, outro existe sempre. Um é uma percepção do espírito, e outro uma realidade. O que pode ser concebido pelos olhos e pelos sentidos como os corpos visíveis pode ser traduzido pela linguagem; o que é incorpóreo, invisível, imaterial, sem forma, não pode ser conhecido pelos nossos sentidos. Compreendo, pois, Thoth, que Deus é inefável”.

       Nos mesmos Livros lê-se também o seguinte:
      “Desconhecendo nossas ciências e nossa civilização, as gerações futuras dirão que adoramos astros, planetas e animais, quando, de fato, adoramos um só Deus Criador e  Onipotente”.

        Na antiga Pérsia, Zoroastro chamava-o de Mitra, o Deus Criador, sendo Orzmud, o Pai.
       No Egito era Osíris.
       Na Fenícia era Adonis.
       Na Arábia era Baco.
       Na Frigia era Athis.
       Moisés denominou-o de Jeová, por assim lhe ter declarado o próprio Deus.
       Maomé adora-o sob o nome de Alá.
     
 Orfeu, o criador da Mitologia grega, considerado por isso, pelos católicos, como o chefe do paganismo, assim se exprime, segundo Justino, o Mártir em sua obra órfica:
“Tendo olhado o logos divino, assenta-te perto dele, dirigindo o esquife inteligente do teu coração e galga bem o caminho e considera somente o Rei do Mundo. Ele é único, nascido de si mesmo, e tudo vem de um só Ser”. E, como veremos mais adiante, Orfeu conhecia a trindade divina.

      Na obra de Apuleio, Metamorfoses, XI, 4, escrita no século II da nossa era, Ísis, a deusa egípcia, declara que ela é a própria divinizada.
      Diz ela:
       “Eu sou a Natureza, mãe das coisas, senhora de todos os elementos, origem e princípio dos séculos, suprema divindade, rainha das Manes, primeira entre os habitantes do céu, tipo uniforme dos deuses e das deusas. Sou eu cuja vontade governa os cimos luminosos do céu, as brisas salubres do oceano, o silêncio lúgubre dos infernos, potência única, sou pelo Universo inteiro adorada sob várias formas, em diversas cerimônias, com 1.000 nomes diferentes.
        Os Frígios, primeiros habitantes da Terra, me chamam de Deusa -  mãe de Pessinonte; os Atenienses autóctones me nomeiam Minerva, a Cecropana; entre os habitantes da ilha de Chipre, sou Vênus de Pafos; entre os Cretenses,  armador de arco, sou Diana Dichina; entre os Sicilianos que falam três línguas, sou Prosérpina, a utigiana; entro os habitantes de Elêusis, a antiga Ceres, uns me chamam Juno, outros Belone, aqui Hécate, acolá a deusa de Ramonte. Mas, aqueles, que foram os primeiros iluminados pelos raios do Sol nascente, os povos Etiópicos, Arianos, e Egípcios, poderosos pelo antigo saber, estes, sós, me rendem um verdadeiro culto e me chamam, pelo meu verdadeiro nome: a rainha Ísis”.
     
 Todos os milhares de tribos da África, tanto as do litoral como as das regiões centrais, algumas de difícil contato entre si e ainda menos com o europeu, adoram um Deus Supremo Criador, Onisciente, Misericordioso e sumamente bom, por isso nunca faz mal à sua criatura, razão pela qual não lhe prestam nenhum culto, nem lhe dirigem preces, nem procedem a sacrifícios de animais em holocausto.

        “Para definir Deus seria preciso empregar uma língua cujas palavras não pudessem ser aplicáveis às criaturas terrenas”.

       Os povos da Antiguidade, como ainda hoje os da Índia, do Egito, da China, eram e são profundamente religiosos, e seus atos foram e são pautados por uma incomparável moral.
     
 Não é, pois, possível, tachar-se esses homens ou esses povos de bárbaros, pagãos, ateus ou idólatras sem confessar má –fé ou falta de erudição e, portanto, incompetência para a crítica científica e histórica; e, se fanático possa haver, é decerto aquele que o fizer.

      Diz Max Muller:

      “Há pessoas que, por pura ignorância das antigas religiões da humanidade, adotaram uma doutrina, menos Cristã, certamente, que todas as que se encontram nas religiões antigas. Essa doutrina consiste em considerar todos os povos da Terra, antes do advento do Cristianismo, como ateus e condenados pelo Pai Celeste, que eles não conheceram, e, portanto, sem esperança de Salvação!”

        A única base teológica propriamente dita da Teologia Cristã reside nos primeiros versículos de João que são copiados da Teologia pagã.
       As idéias dos cristãos são as de Platão, o qual, por seu turno, as bebeu nas filosofias antigas do Egito, de Orfeu, Pitágoras, etc.
       Santo Agostinho, doutor da Igreja Católica, reconhece que se encontram em todos os povos do mundo as mesmas idéias que tinham os cristãos sobre Deus, sejam eles platônicos, pitagóricos, atlantas, líbios, egípcios, indianos, persas, caldaicos, scytas, gauleses, espanhóis, etc.; todos possuíam os mesmos princípios teológicos e dividiam igualmente a divindade em três partes. Ele reconhecia que os princípios de Platão e Moisés são idênticos, por terem ambos estudado no Egito, nas obras de Hermes Trismegisto.

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