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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O Filho Pródigo (Lucas 15, 11-32) - Evolução do Homem através dos erros humanos para a Verdade Divina

A história do Filho Pródigo é, quase sempre, apresentada exclusivamente como a parábola clássica da misericórdia de Deus para com o pecador penitente. Oradores e escritores fazem dela um poema melodramático e sentimental do amor de um Pai que recebe de braços abertos um filho ingrato que, finalmente, se arrepende dos seus desvarios e regressa à casa paterna. Esse Pai misericordioso é Deus, e o filho pródigo é qualquer pecador que se converte.
Não é intenção nossa excluir totalmente essa interpretação comovente.
Entretanto, à luz do texto original do primeiro século, não cremos que seja esta a quintessência, o alfa e ômega da história narrada por Jesus. Por entre as linhas aparece algo infinitamente mais profundo e sublime, mais cósmico e ontológico que esse drama do amor paterno e da humildade filial.

A história do filho pródigo― que, no Evangelho, não é chamada parábola― é o drama da evolução ascensional do homem e a epopéia multimilenar da própria humanidade. (...) A fim de compreendermos devidamente o poema cósmico do filho pródigo, devemos, acima de tudo, remontar ao texto grego do primeiro século, nem sempre fielmente reproduzido em nossas traduções.
No texto original de Lucas― o único evangelista que refere o fato e que escreveu diretamente em língua grega― lemos o seguinte: “Um pai tinha dois filhos. Disse-lhe o mais novo: Pai, concede-me a parte da natureza que me convém”.
A Vulgata Latina traduz: “Dá-me a porção da substância que me pertence”. Substância, em latim, pode significar “aquilo que subestá”, que subjaz à minha vida, que é a minha natureza humana de jovem. Mas os tradutores entendem, geralmente, por substância o dinheiro.
O texto original grego é bem claro quando diz: “A parte da minha natureza (ousia, do verbo einai, que significa “ser”) que me convém (epibállon)”.

Que é que o filho mais novo, talvez de 15 anos, pede ao pai?
Muitos pensam que ele tenha pedido a parte dos bens materiais a que julgava ter direito, e o pai teria distribuído entre os dois filhos os bens da família, na medida do direito de cada um. Mas teria um rapaz o direito de pedir isto ao pai? E, se assim acontecera, como se entende que, após o regresso do filho pródigo, o filho mais velho diz ao pai que nunca recebeu nada dele? Se houvesse a partilha dos bens, teria o filho mais velho recebido a sua parte, e não se poderia queixar.
O texto grego não se refere à partilha dos bens, fala da parte da natureza (ousia) que ao jovem convém. Isto é, o jovem reclama o direito da sua juventude, insiste na sua liberdade pessoal de jovem independente, faz valer o direito de não mais ser criança dependente, mas adolescente autônomo. Pede um modo de vida conveniente (epibállon) à sua natureza de jovem.
O pai reconhece, em silêncio, essa conveniêncianão protesta, não dissuade o jovem com nenhuma palavra; reconhece que ele deve iniciar a fase da sua adolescência. Também não aparece nenhuma mãe chorando e dissuadindo o filho de gozar os direitos da sua mocidade independente.
Em silêncio, “o pai dividiu entre eles a vida” (bios). A palavra grega “bios” quer dizer “vida”, onde a Vulgata Latina repete a mesma palavra “substância”.
O pai dividiu a vida (bios) entre os dois filhoso mais velho continua na sua vida dependente; o mais novo inicia uma vida independente. Ou seja: o filho mais novo desperta para o segundo estágio da sua evolução hominal, deixa de ser criança inexperiente, e passa a ser um jovem experiente da sua ego-personalidade; ao passo que seu irmão mais velho continua estagnado no plano do seu infra-ego inexperiente, não comeu ainda do “fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal”, como diria Moisés.
Com o despertar da personalidade, entra o jovem na fase da liberdade. O livre-arbítrio recém-despertado manifesta-se primeiro em forma negativa, porquanto o ego humano é essencialmente centrífugo, separatista, dispersivo, anticósmico.
E durante muito tempo continua a ego-personalidade a viver exclusivamente nessa dimensão da egoidade hipertrofiada, esbanjando todas as suas potências numa vida dissoluta, como é invariavelmente a vida com cem por cento de ego-consciência e zero por cento de Eu-consciência.
E, como toda a culpa livremente cometida gera sofrimentos necessariamente subsequentes, no ponto culminante das maldades aparecem os males.
O jovem começa a sofrer as inevitáveis consequências das suas culpas. Sofre, sofre, sofre...

Mas o sofrimento não o levou, logo de início, à redenção. (...) O jovem sofredor, no auge da sua miséria, apela para um rico fazendeiro, morador naquela zona; pede-lhe serviço para sobreviver. Sem tardança, o velho pecador se prontifica a ajudar o jovem pecador, mandando guardar uma manada de porcos que ele tem na sua fazenda. Dá serviço ao jovem sofredor― mas não lhe dá alimento.
Assim é que todo egoísta trata outro egoísta.
O jovem acabou pastor de porcos imundos. E (...) quando ele via como os animais, depois de encherem a barriga, deitavam-se gostosamente no chiqueiro e dormiam tranquilamente, enquanto o jovem, de estômago vazio, sentia o desejo de ser animal também para poder ser estupidamente feliz como eles― então despertou nele algo misterioso...
“Desejava encher sua barriga” (implere ventrem suun), não saciar-se, que é impossível ao racional, mas pelo menos “encher a barriga”, como os porcos, já que outra coisa não lhe era possível. Desejava, pelo menos, esquecer sua insatisfação, já que não se podia satisfazer; tentava enganar, narcotizar com gozos materiais os seus anseios espirituais.
Mas, diz o texto, ninguém lhe dava essa satisfação animalesca. Alimentos materiais não saciam fome espiritual.
Ali, no meio de uma manada de animais satisfeitos, desceu a insatisfação do jovem ao mais profundo nadir da infelicidade.

E foi então que o máximo do sofrimento o levou ao início da redenção. “Ele entrou em si”, diz o texto. (...)
Saiu das periferias do ego pecador e sofredor― entrou no centro do seu Eu redentor. Aconteceu ao filho pródigo a maior coisa que pode acontecer ao homem: a autocompreensão. Que sou eu?...
E toda autocompreensão transborda em auto-realização.
Que sou eu? Sou eu realmente um pastor de porcos? Não! Isto é a triste profissão do meu ego humano― mas não é a gloriosa vocação do meu Eu divino...
Que sou eu?
Eu sou filho daquele pai bondoso. Não sou o que pareço ser externamente― sou e sempre serei o que sou internamente. Eu pareço ser escravo de um tirano egoísta, que me reduziu a pastor de porcos― mas eu sou o filho livre de alguém que continua a ser meu pai.
Depois desse ingresso no seu Eu, e esse egresso do seu ego, veio o regresso ao Pai.
A autocompreensão transborda infalivelmente em auto-realização.
Dizem certos tradutores que o jovem se “arrependeu”; outros chegam ao auge da absurdidade afirmando que fez “penitência”. Mas o texto inspirado do Evangelho só conhece a palavra “converteu-se”, ou “transmentalizou-se”. Ultrapassou a sua velha mentalidade ego e entrou na nova consciência do Eu.
O jovem, aparentemente, regressou para donde viera; na realidade, porém, (...) o ponto da sua volta não coincidiu com o ponto da sua partida; não fechou simplesmente um círculo, abriu uma grande espiral, cujo termo de chegada está imensamente acima do termo de partida (...). Entre a partida e a chegada houve uma gigantesca evolução― a jornada cósmica que vai da culpa através do sofrimento até a redenção.
Para celebrar esse grande acontecimento― a autocompreensão e auto-realização de um homem― o Evangelho recorre a tudo quanto possa simbolizar suprema alegria e solenidade: abraços, beijos, anel precioso, deslumbrante vestuário, lauto festim, músicas e bailados. É que a realização de um único homem é um fenômeno mais grandioso que todos os astros e galáxias do Universo. (...)

Quando se estava celebrando essa grande harmonia, aparece uma aguda dissonância: o filho mais velho,que estagnara na sua evolução e continuara a marcar passo na inexperiência, revelou-se incapaz de compreender a linha ascensional evolutiva de seu irmão, que culminou em suprema verticalidade. Nem aceita a palavra “teu irmão”, mas a substitui por ”teu filho”. De fato, o jovem realizado não era mais “irmão” delenão havia nenhuma afinidade espiritual entre eles; ele era apenas “teu filho”, um filho de Deus, sem afinidade com outros filhos de Deus. O filho mais velho se queixa de nunca ter sido recompensado por sua obediência de muitos anos, ao passo que o outro, auto-realizado, nada sabe de recompensa, de espírito mercenário. Quem encontrou o seu verdadeiro ser nada mais sabe do ilusório ter. Quem realizou o seu ser só conhece amor, e nada sabe de recompensa. (...)
O filho mais velho representa um ser humano que, longe de atingir as alturas da individualidade do Eu divino, nem sequer despertara para a personalidade do seu ego humano. E quem não tem consciência do seu ego não é possuidor de nada, como os seres da natureza, que nada sabem de posse ou possessividade.
Por isso, diz muito bem o Pai, que simboliza Deus: “Tudo que é meu é teu”. Tudo o que é de Deus é também do mundo infra-humano― mineral, vegetal, animal― mas esse mundo nada sabe de “meu”. O infra-ego não possui nada, nem sequer um “cabrito”. A consciência do “meu” é um corolário do pequeno “eu” personal ou ego.
O filho mais novo havia chegado à ego-consciência personal e a tinha superado, atingindo as alturas da Eu-consciência cósmica.
(Do livro “A Sabedoria das Parábolas”, Huberto Rohden, Editora Martin Claret, 2004, páginas 22/26.* Ao reproduzir este texto ou parte dele, é necessário mencionar o Autor e a Fonte, em respeito aos Direitos Autorais.*)

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