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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Vampirismo assitido no Terreiro de Umbanda


Conheça um tratamento espiritual, para encarnados e desencarnados, realizado nos Centros de Umbanda.

         No livro Os Dragões, pela psicografia de Wanderley Oliveira, a autora espiritual Maria Modesto Cravo, carinhosamente chamada de dona Modesta, recebe orientações da instrutora Clarisse sobre um atendimento especial oferecido a alguns espíritos resgatados pela equipe de socorro de Eurípedes Barsanulfo, fundador do Hospital Esperança, no plano espiritual.
            Na ocasião, Clarisse esclarece que o chamado vampirismo assistido é um processo nos quais são envolvidos o corpo material, o duplo etérico, o perispírito e o corpo mental do médium. Há, nesse caso, uma intensa transferência de forças vitais e uma interação entre o corpo mental do médium e da entidade com objetivos de recuperação de formas perispiríticas e sensações perdidas em milênios de padecimento.
            Segundo a instrutora, o vampirismo assistido é uma técnica de automatismo que não comporta muito controle ou participação consciente do médium. Por isso mesmo, só deve ser praticada em situações ocasionais e sob intensa supervisão espiritual. A espontaneidade é fundamental em tal operação. É necessária uma entrega incondicional do sentimento e do corpo físico do médium. Mais uma razão para ser praticada por médiuns mais experimentados, que já tenham disciplinado suas forças medianímicas, por possuírem noções mais claras dos limites permitidos nesse gênero de trabalho. Por se tratar de transes profundos, nem sempre o médium tem como aferir essa necessidade. Para suprir essa situação, é preciso uma equipe que tenha consciência do que está realizado. Que haja muito respeito e confiança, considerando que, em várias dessas situações, o médium terá de ser contido fisicamente, exigindo muita integridade moral de todos para essa finalidade.
            Não será demais chamar esse contato mediúnico de uma autêntica “reencarnação relâmpago”, na qual a entidade em desalinho, pela intensa ligação com o corpo físico do médium, desperta, nas matrizes profundas do seu corpo mental, algumas motivações evolutivas que o tempo me a dor lhe subtraíram. Casos existem nesse capítulo da mediunidade em que o acoplamento celular recompõe instantaneamente formas perispirituais que poderiam levar séculos no trabalho de recuperação em nosso plano de ação. O corpo físico é uma usina divina de forças capazes de influir decisivamente nos corpos espirituais.
            Especificamente nos atendimento que serão agora relatados, Clarisse esclarece que os espíritos que seriam auxiliados mais tarde no trabalho de vampirismo assistido eram escravos da perversidade. Servidores inconscientes das sombras. Que foram necessárias mais de quatro horas de intensas iniciativas para alcançar resultados no trabalho de resgate e que apenas seis entidades poderiam ter acesso à manifestação mediúnica.
            Dona Modesta pergunta se as entidades iriam se comunicar àquela hora e que centro abriria suas portas, sabendo que já passava da meia-noite no relógio terreno.
            Clarisse responde que os verdadeiros servidores cristãos só se utilizam do relógio com intuito disciplinar. Não condicionam o ato de servir aos ponteiros limitantes do tempo. Que o atendimento seria realizado no Centro Umbandista Pau Guiné, nos arredores de Uberaba, através dos trabalhos do Pai de santo Ovídio.
            Dona Modesta, em um primeiro momento, é tomada de certo preconceito. Guardava respeito pelas demais religiões, entretanto, nunca havia refletido sobre quem seriam e onde estariam as cartas vivas do Cristo. Ainda bem que foi algo muito passageiro em seu coração, porque as experiências fora e dentro da vida corporal, cada dia mais, apresentavam-lhe uma realidade distante das ilusões que conhecera, sob o fascínio impiedoso do orgulho, na sociedade terrena.

INCORPORAÇÃO E TRATAMENTO

            Clarisse e dona Modesta partem para o Centro Pai Guiné. É um ambiente agradável em ambos os planos. Ao som dos atabaques, são cantados os pontos em ritmo vibratório de alta intensidade. Cada canto é como uma verdadeira queima de fogos de artifício. Uma bomba energética explode no ar em multicores.
            Em uma das várias dependências astrais da casa há uma enfermaria com oitenta leitos bem alinhados. Tudo nesse salão é limpeza e calmaria. Lá não se ouve mais os cantos, e a conexão com o plano físico limita-se ao trânsito de enfermeiros pelos vários portais interdimensionais.
            Seis macas estavam dispostas no canzuá (terreiro). Em cada qual há uma entidade de aspecto horripilante. Olhos que quase saem das órbitas oculares, pele murcha, enrugada e suja, garras enormes no lugar das unhas, com dez centímetros, nas mãos e nos pés, todas retorcidas como as de águia. Magérrimos e nus. Causam náuseas pelo odor. Olham para os trabalhadores desencarnados deixando claro que os veem e, literalmente, grunhem como porcos com a boca aberta semiaberta. Alguns deles estão muitos inquietos nas macas. Retorcem-se como se estivessem com dor, sem manifestar nenhum som. Vários hematomas estão expostos em todos eles, devido aos castigos impostos nos paredões de penitência.
            Clarisse informa que as garras são colocadas para impedir a fuga. Não andam nem têm grande habilidade manual. Serão socorridos pela incorporação profunda ou vampirismo assistido, através dos médiuns umbandistas.
            Mal termina a explicação e uma cena nada convencional ocorre. Um dos enfermeiros da casa pega uma das entidades no colo e coloca-a no corpo do médium.
            Demonstrando câimbras na panturrilha, o médium, incontinenti, absorve mental e fisicamente o comunicante que se ajeita no corpo do medianeiro como se deitasse em um colchão, buscando a melhor posição. Os atabaques aceleraram o ritmo, criando um frenesi de energia no ambiente. Formam-se pequenos redemoinhos de cor violeta e prata, que se desfazem e refazem em vários cantos do terreiro. Modelavam conforme a nota musical dos hinos cantados.
O médium cai no chão. Convulsões e grunhidos seguidos de gritos de dor. Ovídio, o pai de santo aproxima-se e diz:
- Oxalá proteja seus caminhos, filho de Zambi (Deus).
- Eu Sou filho do capeta. Quem és tu para falar comigo? – pergunta a entidade, que agora fala com facilidade por intermédio do médium.
- Sou um tarefeiro da luz.
- Eu sou uma escória da sombra.
- Engano, criatura!
- Não vê minhas garras? Sabe o que isso?
- Conheço essa técnica. São ferrolhos do mal.
- Vejo que estais acostumados ao mal.
- Vim desses vales da sombra e da morte – diz Ovídio, com firmeza na voz.
- Mas andas e és livre. Estais no corpo, enquanto eu... Eu sou um verme roedor... Ou quem sabe, uma águia que não voa... Nem sequer consigo andar graças a essa maldição que colocaram em meus pés... Nem comer mais... Veja minhas mãos... Eu tenho fome e sede.
- Em que te posso ser útil irmão? – indaga Ovídio debaixo de uma forte vibração.
- Quero bebida e comida. Quero que cortem minhas garras.
- Laroyê! Laroyê – grita Ovídio já incorporado por um de seus guias que entoa o canto: “Eu sou Marabô, rei da mandinga. Eu sou Marabô, exu de nosso Senhô. Laroyê!”
            Uma energia colossal movimenta-se com a chegada do Exu Marabô. Os filhos – de – santo o saúdam com palmas rítmicas e pontos próprios da entidade. Muitos deles vão até Marabô, baixam a cabeça em sinal de reverência à sua frente e batem três palmas rítmicas na altura do abdômem do médium.
- Que tu quer, homem esfarrapados. Bebida “pra mode” se arrebentá mais?
- Não, senhor Marabô. Não é isso não.
- Não mente pra Marabô. Marabô sabe ler os ói (olhos). Nos ói tá a visão, mas tá também a verdade e a mentira.
- Eu não minto, senhor. Quero liberdade.
- Pra fazer o que dá na cabeça? Home tu preso é um perigo, livre é um desastre.
- O que o senhor vai fazer por mim? Não pedi a ninguém pra sair daquela joça de lugar fedorento. Por que me trouxe aqui?
- Não fui eu quem trouxe home. O “velho” Bezerra da luz é teu protetor. Sirvo a ele na graça de Oxalá, Pai de poder e misericórdia.
- Que queres comigo?
- Está feliz na matéria do cavalo (médium)?
- Sei que não é minha. Quero uma só pra mim.
- Está gostando do contato?
- Só fartó bebida e comida.
- Olha suas garras.
- Não pode ser! O que aconteceu?
- O cavalo tá dissolvendo suas algemas.
- Pra sempre?
- Pra sempre!
- Quanto vai me custar?
- Nada. É serviço de Pai Oxalá. É de graça. Pedido do velho Bezerra de Menezes. Se voltar pro inferno, elas crescem de novo. Se subir com Bezerra da luz, vai ser cuidado no hospital da sabedoria, onde reina os filhos de Gandhi.
- Filho de Gandhi? Por que se interessaria por escórias como nós. Veja lá nas macas os amigos estropiados – e aponta para a sala ao lado.
- Nada retira do ser humano a condição de Filho do Altíssimo.

            Dita essa frase, o espírito comunicante silencia, enquanto o Exu Marabô faz alguns rituais em cima do corpo do médium. Instantaneamente, o médium convulsiona-se. Quatro auxiliares no plano físico contêm o medianeiro a duras penas. Não sendo o suficiente, mais três se aproximam. Olhando do plano espiritual, não se sabia mais quem era o médium e quem era o desencarnado. Uma gosma sai pelas narinas e pela boca. Espasmo e taquicardia intensa são aferidos por médicos atentos que monitoram o médium e a entidade. O fenômeno é totalmente supervisionado. As unhas da mão e dos pés do comunicante sangram. As garras foram arrancadas até a raiz. Dores intensas e muita confusão mental assinalam seu estado geral. Sedativos potentes são aplicados no corpo espiritual do médium, diluindo no corpo do assistido. Repentinamente uma calmaria. Cessam as convulsões. Na medida em que o médium recobra os sentidos, a entidade os perde. Ajudado por integrantes do centro umbandista, o médium levanta-se vagarosamente e é colocado em um pequeno colchão para refazimento. No plano espiritual, padioleiros disciplinados repetem o procedimento com os outros cinco doentes de uma só vez em cinco médiuns distintos que, ao mesmo tempo, recebem os demais prisioneiros dos vales sombrios.
            Após os serviços de higiene e primeiros socorros, ainda na enfermaria do centro umbandista, Clarisse convida dona Modesta para acompanhar o primeiro contato com aquela criatura. Cornelius, que se encontra entre os trabalhadores do plano espiritual, é o responsável pelo diálogo esclarecedor. Após amoroso diálogo, as entidades assistidas adormecem e são conduzidas para o Hospital Esperança.
            Ouvem-se ainda os cantos no centro umbandistas. Desta vez, dirigidos, a Oxumaré e Oxalá para acalmar o ambiente. Passam de duas horas da madrugada. Dona Modesta impressiona-se com o vigor dos médiuns umbandistas. Ao voltarem para seus lares, brincavam como crianças sem nenhuma menção ao labor ora realizado. Desprendidos da doação e com extremo bom humor.
            Ovídio e sua esposa levam em seu automóvel as senhoras mais idosas. Os mais jovens seguiam a pé pelos matagais em direção às zonas rurais de Uberaba. Todos assistidos por nobres entidades do amor e do bem em nome de Bezerra de Menezes. Heróis anônimos de um tempo de coragem e pura espontaneidade.

Revista Caminho Espiritual - Ed. 21 - por Maria José da Costa


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