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domingo, 25 de setembro de 2011


Reflexões de Umbanda

Observem que queremos chamar a atenção dos leitores para o fa­to de que em um século de existência a Umbanda já avançou muito em seus aspectos teóricos e práticos e, no entanto, sempre haverá espaço para novos livros e conceitos, porque ela é uma religião de fato e uma fonte inesgotável de conceitos e informações. Tanto isso é verdade que jamais deixa­remos de ter novos livros sobre a reli­gião umbandista, nos quais os autores es­tarão reavivando a fé dos leitores, abordando aspectos ritualísticos e con­ceitos doutrinários, sempre movidos pelo intuito de elucidar, esclarecer e ins­truir a novas gerações umbandistas.
Sim, as novas gerações são as gran­­­des levas de pessoas possuidoras da mediunidade de incorporação que adentram diariamente os templos de Umbanda, ávidas por informações acerca do universo divino da sua nova religião.
Pai Benedito de Aruan­da já nos dizia: “Filhos, não temam as críticas cujo único objeti­vo é destruir a Umban­da porque elas não prosperarão, já que a cada novo dia milhares de espíritos reen­car­nam e mui­tos deles já trazem aber­tas as suas fa­cul­dades mediú­nicas, faculdades essas que os con­duzirão ao encontro das religiões espíritas ou mediúnicas, tais como o Espiritismo, a Umbanda e o Candomblé”.
Pai Benedito também dizia: “Filhos, a Umbanda é maior que todos os Um­bandistas juntos, pois ela é uma reli­gião, e, como tal, sempre abrigará no­vos fiéis, mostrando a todos que é em si um mistério de Deus, apto a abrigar em seu seio (templos) quantos a procu­rarem e a adotarem como sua ‘guia’ terrena no caminhos que nos conduzem a Deus”.
Pai Benedito também nos alertava sempre sobre o fato de, caso al­guém qui­sesse se arvorar em “papa” da Um­banda ou chamasse para si a posse dela, dos seus conceitos e da sua doutrina, logo se veria tão assoberbado que se calaria e se recolheria ao silêncio se­pulcral do seu íntimo, já que a Umbanda não tem um dono ou papa.
Pai Benedito também nos dizia: “Filhos, a Umbanda é uma religião mediúnica e, co­mo tal, dispensa templos sun­tuosos, pois onde houver um mé­dium lá estará um dos seus ‘templos vivos’, através do qual a religião fluirá em to­do seu esplendor. Portanto, sejam bons e bem esclareci­dos médiuns, porque serão a religião”.
Tantas foram as coisas ditas a nós por Pai Benedito de Aruanda que é im­possível recordar todas neste momento que escrevo a apresentação deste livro.
Mas se de algumas me recordo é para salientar a sapiência desse nosso amado irmão Preto-Velho que sempre nos alertava: “Filhos, Deus é a verdade e é a fonte divina de todos os mistérios. Só Ele realmente sabe! Quanto a todos nós, espíritos mensageiros e médiuns, somos apenas intérpretes d’Ele e dos Seus mistérios, dos quais temos nossas versões e nada mais”. Logo, caso lhes digam: Esta é a verdade final sobre Deus e sobre seus mistérios – fiquem alertas porque ali estará alguém fazen­do proselitismo em causa própria ou é mero especulador.
Se relembro os alertas de Pai Bene­dito de Aruanda, dados quando ele psicografava através de mim, é porque ele sempre foi um crítico ardente de mui­tos dos comentários sobre os Orixás...
Ele não poupava ninguém quando o assunto era os Orixás e até nos dizia: “Filhos, hoje estão surgindo pessoas, cheias de soberba e sapiência, arvo­rando-se em arautos do saber sobre os Orixás...”

“Lembrem-se”, alertava-nos Pai Be­ne­dito, “que Orixá é mistério de Deus! E, como tal, assume as feições humanas que lhe dermos. Mas lembrem-se tam­bém: existe uma Ciência Divina que ex­plica os mistérios dos orixás de forma científica e, em vez de recorrer aos seus aspectos míticos, os decifra e os ensina através das qualidades divinas que cada um é em si mesmo”.

“Na ‘ciência divina’ está a chave para decifrar os mistérios dos orixás, filhos de Umbanda!” [...] pp.7-9 ...


AUTONOMIA DA RELIGIÃO

Todos os terreiros de Um­banda cultuam os “Ori­xás” e é neles que funda­men­tamos a Teogonia de Um­banda, apresentada a to­dos agora, quase um sé­cu­lo após o marco funda­mental dela, lançado pelo senhor Caboclo das Sete En­cruzilhadas através do seu médium Zélio Fernandino de Morais.
Se todos os umbandistas cultuam Olorum, Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Iemanjá, Oxum, Nana, Obaluaiê, Omu­lu, Oxumaré, Exu, etc., então temos uma teogonia fundamental derivada dos povos “nagôs”, só que adaptados à nossa visão e entendimento, à nossa religião e modo de cultuá-los.
Para cultuarmos os Orixás não pre­cisamos pedir licença a ninguém, muito menos aos nossos irmãos cultuadores deles no Candomblé.

- Os primeiros cristãos não pediram li­cen­ça aos sábios do Templo de Jeru­sa­lém para iniciar o cristianismo, fun­damentado no Velho Testamento e na renovadora mensagem de Jesus Cristo.

- Os primeiros budistas não pediram licença aos seus pares orientais para iniciar sua religião.

- O profeta Maomé não foi à Jerusa­lém pedir licença para iniciar o islamismo, fundamentado no Velho Testamento e na mensagem recebida por ele do Ar­canjo que o incumbiu de fundar uma nova religião.

- A igreja ortodoxa grega não pediu licença a Roma para seguir seu próprio caminho. Apenas se separou dela, e pron­to.

- Os primeiros protestantes da Eu­ropa não fundaram o protestantismo (e seus vários segmentos) com o aval da igreja de Roma, mas como uma dissi­dência a ela e um contraponto ao seu dogmatismo interesseiro e opressor do livre arbítrio dos seus fiéis. Assim tem sido com todas as religiões no decorrer dos tempos e não seria diferente com a Umbanda, pois foi um Cabo­clo, expulso de uma “casa kardecista” e tachado de “Egum” no Candomblé, que sem pedir licença a qualquer religião e sacerdote disse que ali se iniciara uma nova religião, a Umbanda, e ponto final.

Que nos critique e vilipendie quem quiser, mas um dia todos serão “Eguns” e só encontrarão o vazio dos vazios ao desencarnarem, porque das coisas divinas só Olorum é Senhor.
Quanto a nós, espíritos encarnados ou desencarnados, somos seus bene­ficiá­rios, e nós, os umbandistas, temos a nossa interpretação deles e a forma de cultuá-Lo que, se é diferente do Can­domblé, e a nossa interpretação e forma.
Respeite-as quem quiser e aceite-as como válidas também quem for sábio.
Quanto aos que não respeitam nossas interpretações e não aceitam nossa forma de cultuá-Lo, que cuidem dos seus rebanhos porque do rebanho umbandista cuidamos nós, os sacer­dotes umbandistas.

Textos extraídos do livro “Orixás -Teogonia de Umbanda” Rubens Saraceni - Editora Madras.

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