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terça-feira, 21 de junho de 2011

Fumo e bebida na Umbanda, são bons exemplos?

 Muitos dizem que na Umbanda se usa o fumo porque o Preto-Velho Pai Antônio pediu um cachimbo na sua primeira manifestação no médium Zélio Fernandino de Moraes em 16 de novembro de 1908. Na verdade, olhando bem a história, notaremos que Pai Antônio, quando perguntado do que ele sentia falta da época em que estava na Terra (ou seja, no que ele ainda sentia necessidade) ele disse: “meu pito, que deixei no toco no momento da minha passagem” (daí vem o ponto cantado).
Observem que ele não pediu o cachimbo como elemento de trabalho, mas sim, para "matar" uma saudade dos tempos em que estava no corpo físico. Na verdade o primeiro elemento colocado por ele e que, aliás, foi o primeiro elemento material usado na Umbanda, foi uma guia de rosário.
Outros alegam que é uma tradição indígena, mas esquecem que apenas o pajé e seus poucos aprendizes eram os conhecedores da magia da fumaça e não todos os índios da tribo (nem todo caboclo que atua na Umbanda foi pajé).
Algum tempo atrás descobri que a Tenda São Jorge (uma das casas fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas), não utilizava cachimbo e charuto em seus trabalhos e que mudou anos depois por influência de um novo sacerdote que assumiu a casa.
Isso deixa claro (na minha visão) que as entidades não necessitam desses artifícios para atingirem seus objetivos, e mais, que não é uma coisa recente, como eu mesmo acreditava (há tempos venho percebendo que o número de casas que estão deixando de utilizar esses elementos em seus rituais vem crescendo, sendo que em algumas, primeiro deixaram de adotar a bebida, em outras, o tabaco também).
O uso do fumo e principalmente da bebida alcoólica é, no mínimo, um péssimo exemplo para nossa juventude, principalmente num país em que o número de viciados jovens é cada vez maior.
Isso sem contar com a saúde. Muitos alegam que a entidade não é viciada e que ela não aspira, ou seja, não traga a fumaça do cigarro, pois apenas a utiliza como defumação. Mas essa defumação seria tão importante assim se todos são defumados previamente no terreiro? E o efeito dela, vale mais à pena do que o perigo exposto à saúde das pessoas?
Digo isso porque, mesmo não sendo tragada, a fumaça entra na boca do médium. Talvez poucos se atentem a isso, mas o câncer de boca (e esôfago) é um dos que mais matam no Brasil. E sabe qual é um dos principais desencadeadores do câncer de boca? O tabaco, principalmente quando associado ao uso de bebidas alcoólicas (corriqueiro na maioria das tendas).
Câncer de pulmão: índices elevadíssimos mostram que tanto quem fuma como quem respira (fumante passivo), correm riscos. Num ambiente fechado, como é uma tenda de Umbanda, como ficam aqueles que são obrigados a respirar aquela fumaça de tabaco?
Entendo que existem pessoas que defendem o uso do fumo e da bebida (essa, pra mim, pior ainda), mas em pleno século 21, muitos dizem que a Umbanda está evoluindo e se desprendendo dos elementos materiais; e se está, porque então não abolir esses costumes de vez, auxiliando assim muitos órgãos que lutam bravamente para acabar com esses vícios pelo mundo?
As entidades se adaptam rapidamente sem esses elementos, pois muitas vezes os utilizam, mais por necessidade do médium e até do consulente, que precisa de algo material para acreditar que ali tem mesmo um espírito atuante.
Lembro-me de uma vez em que o Exu da casa em que freqüento chegou muito chateado. Ele nos disse que havia visitado um outro terreiro e quando lá incorporou num médium, logo foi recebendo um charuto e um copo de cachaça (marafa). Quando o Exu (que é de Lei) avisou que não bebia e nem fumava, pois já havia entendido que não precisava disso para fazer caridade, foi vítima de risos, e falaram para ele que ele não era um Exu. Isso mostrou que a dificuldade para o umbandista aceitar um guia que não fuma e bebe ainda é muito grande (quando é um Exu ou um marinheiro ou baiano então, nem se fala).
Mas voltemos ao uso do fumo e de bebidas nos terreiros de Umbanda!
Entendemos que a tenda de Umbanda é um local sagrado, não é mesmo? Assim como outros templos religiosos. Então porque só a Umbanda abre espaço para usar esses elementos em suas “igrejas” (entenda igreja como local sagrado = casa de Deus). Até mesmo no Candomblé não existe a ingestão de bebida e fumo com o orixá manifestado (bolado) nos médiuns.
Os estudiosos da aura humana já escreveram vários artigos, entre os quais chamo atenção para o livro “Os Chakras”, escrito por C.W. Leadbeater, que alerta sobre a má influência do uso do cigarro, da bebida e das outras drogas sobre nossa tela protetora que recobre o perispírito e protege os chakras (essenciais para a prática da mediunidade).
A maioria dos terreiros solicita aos seus médiuns para que fumem menos e se abstenham da bebida alcoólica no dia dos trabalhos. Pra que? Tal solicitação não faz sentido, se no terreiro esses mesmos elementos são liberados (em alguns casos, até fora de controle, causando problemas mais sérios)? Certa vez presenciei isso numa festa de Iemanjá, no município de Praia Grande/SP, onde um dirigente chorava desesperado porque duas das suas filhas-de-santo haviam morrido afogadas e que teriam sido levadas pelas “Santas” para o mar – detalhe: o próprio dirigente tinha um forte cheiro de álcool na boca. Eu como umbandista fiquei chocado; imagine uma pessoa que não conhece a religião e acha que todo terreiro trabalha dessa forma!
E como fica uma pessoa que tem ojeriza ao cheiro do tabaco (e do álcool), ou mesmo alguém que sofre de asma e/ou bronquite? Não poderá ser umbandista? Eu mesmo já precisei sair mais cedo quando visitava um terreiro, porque não agüentava o cheiro forte e a fumaça que fazia me arder os olhos (quem tem problemas respiratórios, como uma simples rinite, sabe o que estou dizendo).
Algumas casas permitem que apenas médiuns desenvolvidos possam fumar e beber. Legal! Isso é importante, para não atrapalhar a psique do médium novato. Mas se durante anos o guia não precisou beber e fumar para trabalhar, porque precisará de uma hora para outra?
Outra questão importante é sobre o tratamento a pessoas viciadas. Todas as religiões possuem trabalhos importantes nesse sentido, e vemos constantemente pessoas que se livraram das drogas e do álcool através da religião. Mas como servir de exemplo a essas pessoas, se utilizamos tais elementos dentro do culto? Fica difícil convencer alguém através do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, não é mesmo?
E para completar, no final dos trabalhos, seria correto, elevar o pensamento a Deus, fazer preces e no dirigir às Esferas do Astral Superior (Aruanda), com um tremendo “bafo-de-cana” na boca? Muitas pessoas que defendem o uso do álcool alegam que o cheiro da bebida não altera o hálito do médium, porém sabemos que isso seria impossível. O que ocorre é que o mesmo é mascarado pela mistura do álcool com a fumaça do fumo.
Bom, eu poderia enumerar várias outras situações, mas paro por aqui. Não estou criticando quem usa, nem vou achar que uma entidade é de Luz ou não por usar o fumo, muito pelo contrário. Respeito todos, até porque, na casa que freqüento, por algum tempo também se usou o fumo e a bebida, porém essa prática foi abolida pelo mentor há mais de 25 anos. E sei também que maravilhas acontecem em todos os terreiros de Umbanda, independente do ritual utilizado.
Também não posso deixar de explicar que não sou contra o uso de bebidas em centros de segurança, pois sei que são fontes de energia e utilizadas para defesa da casa na firmeza de pontos especiais (como a tronqueira, por exemplo). Também sei que são utilizadas como componentes de determinados banhos especiais, assim como em certas oferendas. Além disso, entendo que tais elementos possam e muitas vezes devem ser utilizados como material de trabalho pela entidade manifestada, desde que não ocorra sua ingestão, pois sabemos que os espíritos precisam na verdade da parte etérea dos mesmos, e para isso, não é necessário que seja colocado uma gota de álcool no organismo do médium. Isso é claramente comprovado em muitas casas em que as bebidas ficam em copos ou “coités”, dentro do ponto firmado da entidade, sem a necessidade do espírito beber o líquido ali contido.
De qualquer forma, buscando plantar a semente de um debate democrático e respeitoso, acho que esse é um ponto que merece um momento para reflexão.

Um comentário:

  1. Agradeço pela confiança, já que este artigo escrevi a muitos anos atrás para ser editado na Revista Umbanda Centenária (em 2008). Sandro da Costa Mattos - APEU - Associação de Pesquisas Espirituais Ubatuba - www.apeu.rg.com.br

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