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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Exu pede passagem


O Riso

É muito comum que as imagens de Exu estejam gargalhando. Algumas têm expressões sérias ou que sugerem maldade. Mas a maioria está rindo abertamente. O riso largo e solto, embora não pareça, é algo meio tabu dentro do campo religioso. Se observarmos as imagens dos santos nas igrejas, veremos que nenhum está rindo. A maior parte tem a expressão séria e piedosa e só alguns sorriem, apenas ligeiramente.
Exu, no entanto, gosta de rir. Ouvimos, desde crianças, a expressão: “Muito riso, pouco siso”. Em ocasiões pomposas e solenes, não se deve rir. O riso, todavia, faz parte do ser humano. Ele “desopila o fígado”, ameniza as tensões e provoca bem estar.
Nas incorporações dos guias da esquerda é normal os exus e pomba-giras darem sonoras gargalhadas, enquanto dançam e falam.
Embora a obra de Umberto Eco, “O Nome da Rosa”, seja ficção, ela nos traz importantes aspectos do Catolicismo na Idade Média, dos quais eu gostaria de destacar, aqui, a forma interessante como é tratada, no livro e posteriormente no filme, a questão do riso. Trata-se da relutância do velho frade franciscano em permitir o acesso ao Segundo Livro da Poética, de Aristóteles, sobre a Comédia. O horror dele à Comédia e ao riso é tão grande, que envenena as folhas do livro para que, todo aquele que o folheie, morra em seguida. William de Baskerville, o franciscano convidado a fazer uma investigação sobre as mortes que estão ocorrendo no convento, aos poucos vai percebendo a trama. Ao final do filme ele (William de Baskerville), acaba descobrindo onde se encontra o livro. A conversa que ocorre então entre ele, seu discípulo Adso e o velho frade que ocultara o livro, esclarece um pouco porque o riso e a comédia poderiam ser tão perigosos. Quando Adso pergunta por que esconderiam livros como esse, se havia algo errado, o Mestre lhe responde: “Não, Adso, é porque eles contém uma sabedoria diferente da nossa. E idéias que nos fariam pôr em duvida a infalibilidade da palavra de Deus. E a dúvida, Adso, é inimiga da fé. O riso mata o temor e sem temor não pode haver fé. E, se não se teme o demônio, não há mais necessidade de Deus”.
As imagens das Pomba-Giras estão quase sempre gargalhando e quando exus “incorporam-se” em médiuns masculinos, uma de suas principais características é o riso livre e debochado.

A Sexualidade

Os primeiros viajantes europeus a fazerem incursões pelo continente africano – o que já ocorria antes da descoberta do Brasil – encontraram, em observações feitas a templos religiosos, várias imagens diferentes de Exu. Como ele foi sempre considerado o guardião do limiar, era comum encontrar imagens suas às entradas dos templos, cidades, casas ou palácios. Com muita frequência a divindade Exu era representada com um falo mais comprido que o normal e em estado de ereção, por ser o senhor do movimento, aquele que tudo transforma e individualiza, associado portanto ao ato de procriação. Esta qualidade fálica de Exu aparece principalmente entre os daomeanos (Rodrigues, 1988). Em quase toda a África, é muito importante que os indivíduos tenham filhos. Nada de pior pode acontecer a um homem do que tornar-se impotente e à mulher, nada pior do que ser estéril, porque serão os filhos que cultuarão os pais como seus ancestrais. Se alguém não tiver a bênção de ter filhos, quem os cultuará depois de morto? Ninguém. Um individuo com o pênis ereto, pronto a fecundar uma mulher e dar origem a outro ser, é algo muito positivo. Exu, sendo o deus da procriação, um deus fálico, era assim representado, iconograficamente.
Creio não ser difícil imaginar o impacto causado nos viajantes europeus, brancos e cristãos, ao se depararem com essas imagens de Exus fálicos. No cristianismo, bem como em outras religiões, é dada uma ênfase muito grande à castidade (tanto masculina quanto feminina). É fácil supor o choque causado pelas imagens representando a divindade com o falo ereto. Era algo frontalmente diverso dos valores tradicionais cristãos. Desconhecendo completamente a cosmovisão africana e tendo como única medida apenas os seus próprios valores, Exu foi facilmente identificado como algo diabólico. Só o demônio poderia estar ali, com aquele comprido falo ereto, coisa tão terrível para o referencial cristão, que guarda ciosamente sua sexualidade e toda a decorrente exuberância advinda dela.
A ligação com demônio, portanto, já existia desde essa  época. A tese de que a África era uma terra da maldição, perdição e perversidade já era defendida por muitos teólogos da Igreja Católica, entre os quais o Padre Antonio Vieira.
Quando os escravos africanos chegaram ao Brasil, tão desvinculados de seu universo cultural, em terras tão estranhas e em condições tão difíceis, apegaram-se profundamente, como “nicho de resistências”, no dizer de Trindade (1985), ao seu orixá mais importante, Exu.
Os senhores brancos certamente perceberam isto. Começou então um processo gradativo que objetivava a total degradação de Exu. Era preciso compará-lo frequentemente ao diabo, o inimigo número um de Deus, na cultura ocidental. Não é tão difícil lançar uma idéia. Por mais absurda que seja, se ela encontra terreno fértil, espalha-se como as ervas daninhas.
Era preciso fazer com que os escravos fossem, aos poucos, acreditando que a única coisa boa que ainda tinham, na verdade era uma coisa má, diabólica e maldita.
A sexualidade, no sapiens, transcende em muito a dos outros animais. Assume um caráter excepcional, para o sapiens, muitíssimo mais complexo do que o é para qualquer outro ser da escala animal.
Não se restringe a cópulas periódicas e à perpetuação da espécie, ao contrário, ela ultrapassa em muito esses limites. Permeia toda a vida dos homens e das mulheres, transcende nos gestos e nas palavras que pronunciam, nos seus atos mais cheios de ternura mas também nos mais vis. Envereda por caminhos estranhos e perversos e por desvios histéricos e fanáticos. A sexualidade pode tornar-se perigosa na mente de um psicopata, assim como pode parecer inocente numa poesia pueril.
Lembrando Morin, a própria institucionalização da família e a consequente regulamentação da sexualidade gerarão uma série de problemas internos, geralmente esquecidos pela Antropologia, mas muito bem desvendados pela Psicanálise, que tornarão a vida afetiva dos indivíduos e suas relações interpessoais extraordinariamente complexas.
Para ele: Vidas vão ser fulminadas, martirizadas, transfiguradas por desejos insensatos, amores dementes, encontros furtivos e, a partir de então, cada vida será dupla, com sua parte imersa, cada sociedade viverá sua vida dupla, sua vida oficial e sua vida crônica.(Morin, 1975)
Desnecessário seria dizer, mas Exu, segundo sua mitologia, com toda a certeza, apropriar-se-á (ou farão com ele se aproprie?) dessa parte imersa do indivíduo, dessa sua sexualidade subterrânea, que Morin descreve tão bem.
Exu, em muitas de suas formas, avatares, nomes, roupas, expressões faciais, representa claramente essa sexualidade tão desvairada. E o chamado “exu feminino”, a Pomba-Gira (uma corruptela da palavra Bombojiro, que é como os Bantu chamam Exu), é a própria expressão da mulher encarnando um tipo de sexualidade pervertida.
Como a sexualidade feminina foi sempre muito reprimida no Ocidente, a Pomba-Gira representa justamente essa “sombra” da mulher. Esse lado ciosamente escondido. O lado exuberante, sensual, debochado, não é bem visto numa mulher. A Pomba-Gira assimila-o e o expõe sem receios.


A Morte

A consciência da morte é, para o homem, o mais cruel e terrível de todos os enigmas. O ser e não-ser, ao mesmo tempo, é algo inimaginável. Os ritos funerários, o cerimonial feito pelos parentes da pessoa morta, sempre foram e são até hoje, objeto de estudo de antropólogos, sociólogos e psicólogos. É, certamente, o objeto maior da atenção de religiões e religiosos de todas as culturas. O homem não aceita a morte como fato consumado. Já alguns primatas, como o chimpanzé por exemplo, parecem não aceitá-la da mesma forma que os outros animais.
Essa questão do “reconhecimento” da morte como algo inevitável e irreparável, que acontecerá fatalmente a todos e a não aceitação dessa mesma morte, é tratada na obra de Edgar Morin. Ele observa que os mais antigos túmulos conhecidos são do homem de Neandertal, que já era sapiens. Algumas destas sepulturas apresentam vestígios de pólen sobre o cadáver, o que sugere que o morto teria sido colocado sobre uma “cama” de flores. Outras mostram que ao lado dos despojos eram colocados utensílios domésticos, armas e comida. Ora, tudo isso nos mostra claramente que já havia aí, não indícios de espiritualidade, mas uma não aceitação da morte como fato consumado e crenças numa transmortalidade, seja na forma de sobrevivência da alma ou de reencarnação. (Morin, 1975:101,102,103)
Existem muitos nomes e significações ligados a Exu e a Pombo-Gira, mas a maior parte desses nomes está, sem dúvida, associada à morte. Alguns autores citam Omolu (ou Obaluaiê), juntamente com Exu, como os senhores da Morte e do Mal. Temos então: Exu Caveira, Exu Tata Caveira, Exu Omolu, Exu do Cemitério, Exu Calunga, (calunga pequena – cemitério, calunga grande – o mar), Exu Sete Cruzes, Exu Sete Covas, Exu Catacumba, Exu Sete Sombras, Exu Seu João Caveira, Exu Calunguinha do Mar. Pomba-Gira das Almas, Pomba-Gira da Calunga, Pomba-Gira do Cruzeiro. Todos estes nomes e muitos outros, referem-se sempre a cemitérios, morte, túmulos e covas.
Sendo a morte sempre algo em que não se gosta de pensar, dói demais, nada melhor do que ter alguém para carregá-la e talvez conseguir até afastá-la o mais possível, pois Exu tem também poder sobre ela. Assim como ele é o Grande Senhor da Vida e do Movimento ele também é o da Morte (Ikù), que é a cessação de todo o movimento. Como guardião dos limiares, ele é também o “dono” do portão do cemitério.
Como vimos o grande e angustiante conflito existencial do ser humano, que é a morte, encontra em Exu um fantástico representante.
Acredito que, com este estudo sobre as várias representações de Exu, não fica difícil perceber que ele, na verdade, assimilou e catalisa, hoje, alguns dos mais importantes aspectos dos lados sombrios, apavorantes e inaceitáveis da criatura humana.

O Espaço

Seus nomes comumente afirmam que ele é o “controlador dos destinos”, o “senhor dos caminhos” e, por conseguinte, é o dono da encruzilhada e o dono do limiar. Estes títulos – ou atribuições – apesar de terem suas origens nos tempos míticos da velha África, são atributos que ele mantém até hoje na Umbanda e mesmo na imaginação popular. Monique Augras (1985), refere-se com pormenores acerca da periculosidade do conflito existencial que é o espaço, para os seres humanos. Aliás, não só para estes, como também para a grande maioria das outras espécies animais. O espaço transcende os limites impostos pela nossa própria pele. Nosso espaço não é só aquele ocupado pelo nosso próprio corpo. Ele vai muito além. Ele é também nossa casa, particularmente nosso quarto, nosso escritório ou consultório, nosso carro, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade. É em virtude de questões vinculadas à posse de espaços territoriais que são travadas a maior parte das batalhas e guerras nas quais se envolvem países, nações e agrupamentos humanos.
Exu rege os caminhos e os espaços. Como vimos, através das citações de Monique Augras, não é difícil constatar a importância da questão do espaço. Assim, não será também estranho que, dentro da filosofia do Candomblé, somente um orixá tão importante quanto Exu fosse capaz de reger algo tão complexo quanto o espaço. A encruzilhada é dele, pois é o lugar onde dois espaços se cruzam. Ela não precisa, apesar do nome, ser necessariamente em forma de cruz, ou seja, abrindo a possibilidade de quatro escolhas. Pode ser em forma de ‘T’ ou, como nas antigas cidades gregas, de ‘Y’. Aí, as opções ou escolhas podem ser em número de três. Ou pode ser uma “encruzilhada” que permita uma, entre duas possibilidades.
(…) e lembramos a associação que se faz de Esù e as encruzilhadas, representação por excelência da multiplicidade de caminhos e da geração e da imposição de alternativas e possibilidades. Destino e encruzilhadas estão, sem dúvida, intimamente ligados. Como Inspetor Geral de Olodunmare, ao mesmo tempo em que está em todos os lugares e em todas as formas criadas, Esù está simbolicamente representado na encruzilhada, onde assiste e acompanha todas as escolhas feitas pelos homens na sua caminhada pela vida. (Ribas, 1997)
A soleira da porta é guardada por ele também, pois o portão ou porta de uma casa é justamente o lugar onde termina um espaço coletivo – o “espaço da rua” – e começa um espaço pessoal. Ou vice-versa. O espaço da rua é um espaço de todos, teoricamente um lugar mais perigoso. O espaço pessoal é menos perigoso, fecha-se a porta e se estará ao abrigo de ladrões e pessoas perversas. Ao abrigo das intempéries e dos olhares alheios. O limiar guarda simbolismos existenciais profundos e complexos.
Nada mais justo que uma divindade importante como Exu, tome conta dele. Tanto em várias lendas e mitos quanto em contos de fadas encontramos momentos em que os guardiões dos limiares são criaturas perigosas e ferozes.
Mircea Eliade (1992) fala-nos acerca dos achilpa, uma tribo Arunta (Austrália). Segundo suas tradições um ser divino, Numbakula, nos tempos míticos havia sacralizado o tronco de uma árvore da goma (kauwa-auwa). Este tronco tornou-se um poste sagrado e os achilpa levavam-no sempre consigo, pois escolhiam a direção que deviam seguir dependendo da inclinação do poste. Tendo este uma vez se quebrado, toda a tribo foi tomada de grande angústia; vaguearam durante algum tempo e finalmente sentaram-se no chão e deixaram-se morrer.
Creio que este exemplo é extremamente notável para demonstrar a importância, para o ser humano, em demarcar o seu espaço. Hoje, em nossa cultura, “marcamos” nossos espaços, através de escrituras de compra e venda, por exemplo. Assim, esta casa é minha, pois eu a comprei. Eu tenho a escritura que comprova que ela é minha. Todavia, em outras culturas, não é assim tão simples a legitimação do espaço. Como vimos, para os achilpa, é um poste sagrado que, dependendo do lado para onde ele se inclina ou pertence estático, torna aquele determinado local como sendo legitimamente habitável para eles e seus rebanhos.
Para os povos indígenas das Américas, sempre pareceu muito estranho que os europeus quisessem provar-lhes através de um simples papel, que aquela terra era deles e não dos índios.
O espaço sagrado é sempre diferenciado do espaço profano.
Assim, os templos e as Igrejas são lugares sagrados. Na Umbanda, o conga é o “eixo cósmico”, pois é ali que, durante as giras, as entidades vão descer e incorporar-se nos médiuns.
Geralmente, há rituais que demarcam as fronteiras entre o espaço sagrado e o profano. Nas Igrejas Católicas, ajoelhamos e fazemos o sinal da cruz, antes de entrar. Nas mesquitas muçulmanas, os homens tiram os sapatos antes de entrar no templo. Nas Tendas Umbandistas, pede-se que os fiéis, antes de tomar passes ou fazer consultas, tirem os sapatos, o relógios, jóias e óculos.
No Candomblé, Exu rege os espaços mas, essa característica, de certa forma passou para a Umbanda de modo muito enfático. Ele rege o limiar, conforme já foi dito antes. Mesmo nos centros umbandistas mais “puxados” para o Kardecismo, no portão de entrada, se não houver uma imagem de Exu, há pelo menos uma oferenda a ele: um copo de aguardente, um charuto aceso e uma vela preta (ou vermelha) acesa.
Ao pensar em todas as batalhas, guerras e conflitos políticos que já abalaram o mundo, vê-se que, quase sempre, eles acontecem em virtude da posse de determinados territórios.
Assim, Exu torna-se, então, Exu Vira Mundo, Exu Tranca Ruas, Exu Sete Encruzas, Exu Sete Porteiras, Pomba-Gira Rainha do Cruzeiro, Pomba-Gira da Praia, Exu da Encruzilhada

Os escritos acima fazem parte do livro, Exu pede passagem cuja autora é Mara Martins Passos.
"Exu pede Passagem", editado em 2003, pela Editora Terceira Margem. 

Um comentário:

  1. Bem, não deixei de ficar feliz por ter a Fraternidade Espírita Monsenhor Horta, ter publicado aqui estes textos de meu livro.
    Mara M, Passos

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